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4 de Setembro de 2010

2 de Setembro de 2010

Campo de palavras paridas

by Julieta Ferreira — Categories: PoesiaSem Comentários

Sou casa habitada por espaços
onde o silêncio solto se acoita.

Murmúrio plantado nos vazios
onde o sol sem riso pernoita.

Estrada à beira de sumidos ermos
onde o entardecer grita cansaços.

Pinto madrigais na brisa das vidas,
soletro o amor em telas outonais.

Sou canto, lamento, fúria, alento
manta de cor em leito sem rio,
delírio fremente de sonho posto.

Sou vendaval de um fim sem princípio
num perpétuo fecundo inventar.

Sou campo de palavras paridas
onde a solidão adormece sem lar.

31 de Agosto de 2010

Volto a ser poeta

by Julieta Ferreira — Categories: PoesiaSem Comentários

Volto a ser poeta de espírito à solta
das musas não recebo áurea visita
é nas palavras que colho o meu condão.

Servem-me de leito onde vou desaguar
são melodia onde o meu peito se enreda
com elas sei dizer-me num eu sem senão.

Deusas virgens, sereias fugidias
mulheres, meninas, meretrizes
almas de corpos assexuados
sensuais, lúdicas, enamoradas
jogam entre si em mundos abertos.

2 de Agosto de 2010

Nuestros hermanos

by Julieta Ferreira — Categories: Diário — Tags:, , , Sem Comentários

Foi durante a juventude que pisei, pela primeira vez, o solo castelhano. Extasiei-me com a Alhambra em Granada, passeei de charrete pelas ruas sevilhanas, admirei o Alcázar em Córdoba e bebi muita coca-cola, numa viagem de finalistas do liceu, a minha primeira saída de Portugal. Mas nunca tive a oportunidade de falar e conviver com o povo. O mesmo se passou, muitos anos mais tarde, quando viajei por Madrid e fui turista nas praias de Torremolinos e Marbella. Das poucas vezes que tenho tido contactos com nuestros hermanos, fiquei sempre com uma impressão mais depreciada do que lisonjeira. Constantemente, sou levada a combater a tendência, muito enraizada no ser humano – à qual não fico imune – de assumir o que quer que seja sobre pessoas e culturas que se desconhece. Eu própria fui alvo dessa percepção distorcida e ideias preconceituosas, por parte de australianos, que ainda não tinham a capacidade de aceitar maneiras de estar e viver, diferentes das deles.

Ao ser solicitada para fazer parte do corpo docente de um Curso de Imersão Linguística em Português, na província castelhana da Estremadura, senti-me, desde logo, entusiasmada com o que poderia usufruir dessa experiência. Não só pelo ensejo de voltar a ensinar a língua lusa, da qual sou uma adepta ferrenha, como também pela possibilidade de ficar a conhecer melhor uma cultura que, embora latina como a nossa, é distinta e única. Passar 7 dias e 7 noites, na clausura e pacatez de um antigo convento, numa localidade totalmente desconhecida para mim e de cuja existência jamais ouvira falar, era por si algo de diferente e inusitado. Para além disso, estar continuamente na presença de estranhos que, em princípio, pouco ou nada tinham a ver comigo, era um desafio a que não poderia ficar indiferente. Era como se, de repente, fosse fazer parte da série Big Brother!

Foi assim que, apesar do isolamento conventual, de uma aldeia fantasma onde escassearam os leques (ou abanicos) e onde as temperaturas altíssimas nos deixavam derreados, suados e forçados a ingerir litros de água por dia, pude enfim confraternizar com um grupo de espanhóis – castelhanos, para quem preferir – e modificar a opinião que, enganosamente, me havia acompanhado, durante décadas. Tive ocasião, através de um diálogo aberto e despretensioso, de encontrar resposta para as minhas questões e clarificar as minhas dúvidas. O grupo era heterogéneo, com o elo da simplicidade a mantê-lo unido e coeso. Eu era a professora mas foram eles que me ensinaram o que nunca teria aprendido num qualquer curso ou classe. Depois desta semana, na Hospedaria de La Parra, jamais olharei para um espanhol da mesma maneira. Fiquei convertida. Bem-haja o extraordinário grupo de formandos da Estremadura!

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