
Foi durante a juventude que pisei, pela primeira vez, o solo castelhano. Extasiei-me com a Alhambra em Granada, passeei de charrete pelas ruas sevilhanas, admirei o Alcázar em Córdoba e bebi muita coca-cola, numa viagem de finalistas do liceu, a minha primeira saÃda de Portugal. Mas nunca tive a oportunidade de falar e conviver com o povo. O mesmo se passou, muitos anos mais tarde, quando viajei por Madrid e fui turista nas praias de Torremolinos e Marbella. Das poucas vezes que tenho tido contactos com nuestros hermanos, fiquei sempre com uma impressão mais depreciada do que lisonjeira. Constantemente, sou levada a combater a tendência, muito enraizada no ser humano – à qual não fico imune – de assumir o que quer que seja sobre pessoas e culturas que se desconhece. Eu própria fui alvo dessa percepção distorcida e ideias preconceituosas, por parte de australianos, que ainda não tinham a capacidade de aceitar maneiras de estar e viver, diferentes das deles.
Ao ser solicitada para fazer parte do corpo docente de um Curso de Imersão LinguÃstica em Português, na provÃncia castelhana da Estremadura, senti-me, desde logo, entusiasmada com o que poderia usufruir dessa experiência. Não só pelo ensejo de voltar a ensinar a lÃngua lusa, da qual sou uma adepta ferrenha, como também pela possibilidade de ficar a conhecer melhor uma cultura que, embora latina como a nossa, é distinta e única. Passar 7 dias e 7 noites, na clausura e pacatez de um antigo convento, numa localidade totalmente desconhecida para mim e de cuja existência jamais ouvira falar, era por si algo de diferente e inusitado. Para além disso, estar continuamente na presença de estranhos que, em princÃpio, pouco ou nada tinham a ver comigo, era um desafio a que não poderia ficar indiferente. Era como se, de repente, fosse fazer parte da série Big Brother!
Foi assim que, apesar do isolamento conventual, de uma aldeia fantasma onde escassearam os leques (ou abanicos) e onde as temperaturas altÃssimas nos deixavam derreados, suados e forçados a ingerir litros de água por dia, pude enfim confraternizar com um grupo de espanhóis – castelhanos, para quem preferir – e modificar a opinião que, enganosamente, me havia acompanhado, durante décadas. Tive ocasião, através de um diálogo aberto e despretensioso, de encontrar resposta para as minhas questões e clarificar as minhas dúvidas. O grupo era heterogéneo, com o elo da simplicidade a mantê-lo unido e coeso. Eu era a professora mas foram eles que me ensinaram o que nunca teria aprendido num qualquer curso ou classe. Depois desta semana, na Hospedaria de La Parra, jamais olharei para um espanhol da mesma maneira. Fiquei convertida. Bem-haja o extraordinário grupo de formandos da Estremadura!