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O meu poema

O meu poema…
É verso que delonga em acabar
No vento tingido da madrugada
Teu riso verdejante em mim a segredar
No meu corpo o bafejo da tua serenada.

O meu poema…
Sem rédeas no corcel do sonho é voz
Varanda enfeitada no tempo do sentir
Luz do nascente a florescer em nós
Raiz da loucura que pinta este sorrir.

O meu poema…
Flor de jasmim, doce vinho, rubra canção
Rio em galopada de pujante alento
Esfera de mundos a brincar na tua mão
Seara por ceifar do nosso sentimento.

Alma magoada

Pode ser que um dia escreva sobre ti
Ainda é cedo…
Hoje quero falar daquele momento
Em que a cidade deixou de luzir
E ficou silenciada.
Na escuridão e no silêncio
Coube apenas a espessa ferocidade
Da minha mágoa sem alento.
Não sei como foi…
Como consegui tamanha pena sentir
Se estava paralisada.
Foi tudo tão repentino…
Gelou o presente e o passado ressuscitou.
As palavras a morrerem na garganta
E eu lesada a falar num desatino.

Na antecedente hora…
Vesti-me de uma tão fugaz quimera
Se eu pudesse atrás voltar…
Se eu soubesse o que sei agora…
Contudo mudar nada quereria
Ainda que chore minha alma magoada.

Obscuro silêncio

Mais pesado que o vazio da morte
É o silêncio que de manso nos habita
E sem jeito quase nos petrifica…

Silêncio da palavra esvaziada
Ou ainda da sentida mas não dita
Silêncio que precede uma ausência
Ou o alto grito da negação calada

Silêncio que do amor é carência
Do desamor um manto avultado
Do vácuo uma insistência sem par
Da desilusão um som abafado
Peso que jamais parece findar…

Esperança

Queria conhecer tua verdade
Nos teus olhos ver o que perdi
Quando amava despida de razão.
Queria pedir-te sem vaidade
Para pintares de luz a minha face
Queria ler nas linhas da tua mão
A vida que ainda não vivi…
E quiçá o meu sonho voltasse.

Se quiseres vem comigo descobrir
A que deixei no tempo desamparada
Desfolha os penares do meu poema
Atapeta de esperança a minha estrada.

Não digas um moribundo talvez…
Esboça sorrisos na tela por nascer
Traça destinos na calma da minha tez
Enfeita de cor a janela do meu alvorecer.

Agora…

Agora…
Único tempo
Princípio e fim
De um perfeito momento
Agora…
O passado adormeceu
No côncavo da minha mão
Agora…
Construo uma nova memória
Vejo-me nua e inteira
No instante sem senão
Agora…
Reinvento uma outra maneira
Nem é tarde nem é cedo
Para descobrir minha história
Agora…
Um ténue desejo alvoreceu
Na orla do meu sorriso
Agora…
Já quedou o desencanto
Minha alma transpira de luz
Nem é pouco nem é tanto
Agora…
Tudo passa a ser o que supus.

Abandono

Foste-te.
Não sei em que dia ou a hora
Uma vez de muitas vezes
Simplesmente foste-te embora.

Mas não foi simples ou único
Esse sombrio momento de partir
Para sempre na minha memória
O abandono não cessa de me ferir.

Queria ter ficado por lá…
Aninhada na veleidade de então…
A desenhar no vento a nossa história
A escutar do tempo a muda solidão.