PAUSA

Ξ Janeiro 6, 2009 | → 3 Comentários | ∇ Diário |

 

Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia; e se não ousarmos fazê-la, teremos ficado para sempre, à margem de nós mesmos.“ (Fernando Pessoa)

Este tem sido o meu tempo da travessia, coincidindo com o alvorecer de um novo ano. O meu recolhimento em nada tem a ver com paragem. Contudo o dinamismo mudou. 

Pausa para cultivar o pensamento e reencontrar quem sou. Pausa para sentir o que a minha alma pede e descobrir novos caminhos que me levem a outros lugares, sem deixar de revisitar aquele lugar a que volto sempre. Melhor dizendo: aquele lugar que nunca abandonei. (mais…)

 

FELIZ NATAL!

Ξ Dezembro 12, 2008 | → 3 Comentários | ∇ Diário |

 

Lembro, com imensa nostalgia, os Natais da minha meninice,  num apartamento de um predio de cor rosada, numa rua estreita, entre o Campo de Sant’Ana e o Intendente. Na cozinha, ao fundo do longo corredor, havia uma chamine e era ai que eu colocava um sapatinho, na noite precedente ao dia mais desejado em todo o ano.

Que entusiamo na Vespera de Natal! Os preparativos para a Consoada desenrolavam-se pelo dia fora e deixavam-me enlevada. As compras da ultima hora, sob uma aragem fria ou uma chuva miudinha, de sorriso aberto e de maos enregeladas, escondidas na macieza das luvas. O bolo-rei que chegava a tardinha, ainda quente, aromatizando a casa. (mais…)

 

Do baú das recordações

Ξ Dezembro 2, 2008 | → 1 Comentário | ∇ Diário |

Hoje fui surpreendida pelo passado. Depois de anos hibernando, em caixas poeirentas e folhas amarelecidas, voltou ao afago trémulo das minhas mãos, sob um olhar emocionado e ansioso. Recuei no tempo e voltei a ser menina e adolescente. Por entre as páginas daquele livrinho de Autógrafos de capa vermelha, revi os amigos, colegas e professoras que passaram pela minha vida, na década de sessenta. E pelas dedicatórias deles, eu reencontrei quem era.
Mas o que mais despertou a minha curiosidade e me fez ficar de olhos humedecidos, foi a descoberta inesperada de alguns dos poemas que eu escrevera há mais de trinta anos.
E foi assim que decidi partilhar convosco este momento tão significativo para mim, publicando um desses poemas.

Anatomia da Cidade

Caudais tumultuosos
Gritando com furor
Amantes desejosos
Na sua ânsia de amor.
E no asfalto vidrado
A multidão citadina
Poisa seu pé cansado
Morde com fúria canina.

Há balões no ar
Pairando em vazios
E nas ruas há rios
Sôfregos de continuar.
Obesos em espírito
Estendem membros ousados
Não vão cometer o delito
De se verem ultrapassados.

Vozes pedem tostões
Escondidos sob casacos
Os avarentos aos milhões
Aferrolham moedas em sacos.
A chuva fustiga a vidraça
Molha tudo por onde passa
Só não lava a podridão
Dos que sorriem um não.

Aqueles que lêem jornais
Sentados à mesa do café
Defendem causas sem fé
E há os intelectuais
Sempre de livro na mão
E de óculos no nariz
Que não sabem porque são.

Discussões acaloradas
Gestos largos, frases feitas
Perdem-se em pequenos nadas
Ao nascer logo desfeitas.
E a cidade afundada em lodo
Viverá em perene logro
Porque já não se sabe amar
À força de não se dialogar.

26 de Dezembro de 1973

 

O sabor agridoce da vingança

Ξ Novembro 24, 2008 | → 1 Comentário | ∇ Crónica |

Os dias sucedem-se numa igualidade e monotonia apavorante. Dá-me para ir ver James Bond, preenchendo algumas horas de uma tarde de sábado calmosa, propícia a um remanso, numa sala de ar fresco, ainda que artificial. Não me recordo quando foi a última vez que vi um filme do famoso 007, visto não fazer parte das minhas preferências de assídua cinéfila. Mas ontem aventurei-me. Era isso ou ficar no quarto, debaixo da ventoinha, ruminando na quietude do meu fim-de-semana.
Da vaga memória que ficara, esperava vir a ser entretida pelas façanhas de um personagem carismático, exibindo uma provocante sexualidade que, possivelmente, me faria salivar de apetência. Total engano. Foi brutalidade em vez de sexualidade com que fui confrontada, durante duas horas, fazendo um esforço por seguir uma trama em que as imagens se sucediam a uma velocidade galopante e espectacular, num emaranhado de cenas, a atestar a minha perspicácia. E apenas salivei, ao saborear, com gula, o gelado de chocolate que é uma espécie de recompensa, no final de uma semana de dieta mais restrita. (mais…)

 

A memória de mim

Ξ Novembro 21, 2008 | → 2 Comentários | ∇ Poesia |

Vivo com a memória de mim
Perseguindo no desnudado espaço
Um tempo que chegou ao fim
Duvidando se ainda sou
Quem outrora o amor beijou.

Tenho saudades de em teus olhos
Espelhada, minha imagem reencontrar.
Tenho saudades de em tuas mãos
Aninhada, minha alma reinventar.

Na sombra da que noutro lugar fui
Olho-me sem jamais me perceber
Sinto saudades de mim
Onde estou há muito deixei de ser.

 

Escrevo para me encontrar

Ξ Novembro 15, 2008 | → 4 Comentários | ∇ Poesia |

São os versos pétalas do meu desencanto
São as sílabas frutos de um perdido olhar
Amadurecidos no bosque do meu pranto
Escrevo para no abandono me encontrar.

O poema é afago na longa noite fria
Regalo nas mãos desertas do teu calor
Janela entreaberta em minha casa vazia
Escrevo para a desnuda solidão enfeitar.

São as páginas o alvorecer do meu clamor
Escrevo para a tua ausência habitar.

Nas palavras encurto a distância
O tempo pára na bruma do arrastar da hora.

Escrevo para preencher os vazios
deste silêncio onde o amor é memória.

 

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