
Embalar no seu ventre
O fruto do desamor
Dar vida estoicamente
Afagar o sonho perdido
No filho de si nascido
Acreditar para sempre
Ainda que falhe ternura
Sorrir em face da dor
Morrer só e lentamente
Privada do seu amor
Entoar canto de amargura.
Ser mãe esposa amante
Amiga e fiel confidente
Além disso a companheira
Num consagrar-se constante
Deixando a fêmea dormente
Não a julguem feiticeira.
Vulgar ou de mais sofisticada
Analfabeta ou com dom de artista
Prostituta ou notável fadista
Tantas as vezes que é ignorada
O sofrer a encobrir é o seu manto
Perdida está num vale de pranto.
Atrás do homem fica ignorada
Vítima de abusos tamanhos
Obscura e de voz silenciada
Mártir de inconfessáveis danos
Ergue-se mesmo assim airosa
Enfrenta de pé o mundo corajosa.

A amenidade de uma tarde de Março
Pinceladas de uma primavera prematura e desejada
A luz a espalhar-se pelos morros da cidade
O sol a deixar pegadas pelo empedrado gasto das ruelas
O meu encontro com um passado de saudade
A doçura e firmeza da tua mão entrançada na minha
A aragem a folgar com os meus cabelos
O meu sorriso leve e aberto de menina
Um caminhar sem desvios num uníssono passo
O teu surpreendente desvelo e a minha comoção
Olhares a falarem de muitas histórias
Corpos a denunciarem os nossos desejos
Eu a querer dar-te um beijo no perdido caramanchão
Tu a dizeres do teu gostar num lânguido abraço
Imagens a perpetuarem um instante com devir
O desenhar de um presente de novas memórias
Nos nossos lábios tantas palavras por florir…

O amanhã chegou…
Outrora difuso e sonhado
Num tempo onde a luz fugia
No sufoco do pântano do meu viver.
Era um amanhã opaco
No enredo brumoso do meu frouxo querer.
Desejado e temido.
Buscado e perdido.
É agora um amanhã a espreitar
No presente do meu contentamento.
Tela de pinceladas soltas.
Verso branco por rimar.
Começo luzente nos sorrisos que te dou.
Esboço de um conto por findar.
O amanhã saltou o espesso muro…
Barca de leme liberto ao vento
Cantantes imagens do meu futuro.

O teu olhar…
É bússola do meu destino
Ramo verde sem podar
Sol sem haver poente
Abismo da minha loucura
Caudal da tua bonança
Desejo da nossa ventura
Instante suspenso no tempo
Grito de boa esperança
Nascente do meu sustento
Carícia que tardou em chegar.
Gaivota dançarina
Madrigal de verso solto
Rio em mim a desaguar
Alvo livro da minha sina
Cantata em sol maior
Harpejo em noite de luar.
Ah amor! Esse teu olhar!
Envolvente… sequioso
Enamorado … candente
Estrela em céu aberto
Onde quero mergulhar.

No curto espaço de tempo que decorrera desde que se conheceram, aquela era a segunda vez que ele lhe oferecia flores. Primeiro, tinha sido num dia em que o brilho do sol de inverno cobria a cidade. Ela falara muito, como era seu hábito, quando se emocionava, se sentia feliz ou sem jeito. Nesse princípio de tarde, fitando, sem cerimónia, a profundez dos olhos dele, deixou-se embalar pela aliviosa intuição e provou, num inebriado estupor, o retorno da sua feminilidade. Contudo, esse dia que passaram a chamar, como cúmplices de uma história por desvendar, o dia do eclipse, tinha sido um teste para ambos. As flores que ele lhe ofertara, depois da revelação incómoda, de uma realidade cortante, pesaram-lhe nas mãos trémulas, ao sentir-se como folha outonal, desenraizada, solta, na voragem de um inesperado temporal. As flores ficariam a lembrar-lhe a esperança e a desilusão. Conservaram-se, airosas e luxuriantes, tal como se conservou nela o animado desejo de não renunciar a um sonho jamais perdido.
Agora a singela rosa branca fazia-a levitar, no silêncio partilhado de duas almas que se haviam reencontrado. Sim, porque ela soubera, desde o inicial encontro, que as almas de ambos guardavam a memória de um Tempo Outro e traziam em si a urgência de se buscarem. As palavras eram esparsas, não por falta de emotividade mas sim pela calma que já habitava nela. Era a serenidade que advinha de um regresso a si mesma; de um sentimento que brotava de uma antiga nascente mas agora fluía, renovado; da chegada a um cais que se reconhece e onde nunca se aportou. Era o reinventar do que parecera esquecido. Era o despertar de um sono não desejado.
Ele era o príncipe que vivera no fantasioso jardim da sua imaginação de menina. Ele era o homem que ela romantizara na solidão cerrada da sua realidade de mulher. Tanto lhe queria contar e beber-lhe as palavras! Tanto lhe queria dar e abrir o regaço para o receber!

O frio gelava sórdidos membros chagados
No asfalto citadino
Numa manhã invernosa de domingo.
Sentou-se entre genuflexões
E murmúrio de preces cantadas
A igreja a vibrar em uníssono hino.
Quedou-se tranquila, apaziguada.
No rosto sereno, um trejeito de menina
Ou de filha à casa retornada.
Trazia a alma ridente e o coração lavado da dor.
No tumultuoso silêncio
Das palavras sentidas e das volvidas emoções
Com o espírito tão próximo do divino
Deu graças com redobrado fervor.
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