“It is not good for the man to be alone. I will make a helper suitable for him.”
“And the man said: This is now bone of my bones, and flesh of my flesh: she shall be called Woman, because she was taken out of Man.” (Book of Genesis)
No meu despretencioso entender, afastado de qualquer ideologia, seja ela religiosa ou social, ou ainda de qualquer interpretação erudita de psicanálise freudiana ou outra, os homens continuam a querer mulheres que lhes sirvam de ajudantes e apoiantes. E, ao contrário do que muitos possam pensar, o sexo não se encontra no topo da lista daquilo que eles querem. Talvez mesmo por causa dessa falsa noção é que não se tem escrito muito acerca do assunto e se tem dado lugar privilegiado ao querer das mulheres, na maioria dos casos numa literatura, cinematografia ou média de cariz cínico e jocoso. Isso porque é também ideia generalizada de que as mulheres – pobres coitadas! – não sabem o que querem ou continuamente mudam as suas vontades, provocando a confusão e perplexidade nos espíritos daqueles que as desejam descomplicadas e prontas a lhes oferecerem serviço e reverência. (mais…)

“O Alentejo é na verdade o máximo e o mínimo a que podemos aspirar: o descampado dum sonho infinito e a realidade de um solo exausto.” Miguel Torga
A entrada dela, no Centro de Arte Moderna, nunca passaria despercebida. Muito menos para mim. Reconheci-a, mesmo sem a ter visto antes. Contudo não lhe sabia os segredos: seria uma revelação sem pressas e também sem demoras.
Ela trazia a frescura e leveza do linho acabado de lavar, no estendal, banhado pelos raios luminosos e quentes de um sol de estio. O seu andar ondulante era de menina com saia rodada ao vento e pés desnudos, beijados pela macieza de uma seara de ouro com salpicos do rubro vivo das papoilas. A sua tez morena fez-me lembrar noites tranquilas ao redor da crepitante lareira, ao som de castanhas a assar e de histórias de outros tempos. Nos seus olhos profundos e inquisitivos havia a chama viva de um acolhimento ansiado. Os seus gestos largos e efusivos, a sua voz cantante e apressada contrastavam com a placitude dos sobreiros e a dormência da planície que eu adivinhava estarem embebidos na sua alma.
Deambulando com vagar pelas salas onde a arte nos surpreende e confronta, fomos encurtando a distância entre as ilhas que ambas somos mas não queremos ser. E o diálogo foi colorido, com pinceladas das vidas que encentávamos a partilhar.
Fui descobrindo a mulher e amiga que me fora revelada primeiro pela palavra que é sempre o espelho daquilo que pensamos e sentimos. Fui descobrindo a filósofa que ensina como quem ama porque essa é a única maneira de ensinar. Fui descobrindo a leitora fervorosa de Torga que versejou sobre a térrea planura e um sobreiro a sangrar ao lado do qual pode, talvez, um pobre coração bater e ao mesmo tempo descansar. (mais…)
Ele acompanha-a nos momentos de solidão e fá-la recordar aquela que ela fora nos braços dele. Fugaz e passageira foi a sua presença num outro tempo e espaço mas deixou um rasto no corpo dela que jamais vibraria com a mesma intensidade e calor; uma chama na alma dela que cessou de a iluminar.
Ele reacendeu a juventude e a loucura no seu espírito sedento de paixão. Foram escassos encontros que perduraram na sua memória apesar do abandono, da ausência e da distância. E talvez mesmo por isso a lembrança ficou. Lembrança dos odores, dos sentires, dos pequeninos grandes nadas que pertencem aos amantes e que são indescritíveis. Lembrança das mãos esguias dele a contornarem-lhe a face; a acariciarem-lhe os seios; a pressionarem-lhe as nádegas; a descobrirem-lhe o corpo em abandono; a revolverem-lhe os cabelos. Lembrança da voz dele sussurrada ou excitada. Lembrança do corpo dele afundado no dela em espamos de delírio. Lembrança das noites sem sono aninhada nele, inalando o seu perfume e sentindo a macieza doce da sua pele. Lembrança do arrebatamento que ele provocava nela, quer estivesse presente ou ausente. Lembrança da boca dele a deixá-la perdida na volúpia dos seus beijos.
Hoje ele personifica o que ela deseja que a Vida lhe devolva. E em cada encontro com um outro homem ela está a analisar e a comparar a sua maneira de sentir. Sem querer. Quase inconscientemente. Só mais tarde se dá conta. Quando dá pelo vazio, pelo desânimo, pela nostalgia e tristeza.
Aquele sentir de outrora nunca foi recuperado.