
Quero voltar a visitar jardins adubados com risos coloridos de primaveras trauteadas por rouxinóis sem gaiolas.
Quero voltar a percorrer veredas atapetadas com o perfume dos ramalhetes de carinhos trazido pela brisa matutina.
Quero voltar a acordar com o prenhe cântico das águas a entoarem um hino de soltas pinceladas na tela do porvir.
Quero voltar a abraçar o rio onde a palavra se acosta e os versos germinam nas margens de promessas com destino.
Quero voltar a saber o brilho do amor a despontar no cálido horizonte de uma perene alvorada.
Quero voltar a reconhecer o meu rosto nos sonhos a ondular pelas vaidosas searas de passados estios.
Quero voltar a traçar as linhas luminosas de um desejo na serenidade de um lago habitado por afagos de nenúfares.

Ondas sagradas do Tejo
Deixa-me beijar as tuas águas
Deixa-me dar-te um beijo
Um beijo de mágoa
Um beijo de saudade
Foi uma noite para nunca esquecer. Faltam-me as palavras para exprimir o que senti ontem. Durante duas horas, fiquei cativa e emocionada, com os acordes da guitarra portuguesa e o fascínio da voz de Mariza a embalarem-me e a falarem-me da alma da minha gente. Perdi a noção do tempo e do espaço e fui transportada, em delírio, para a minha terra. Essa terra que Mariza veio trazer-me para me aconchegar e reavivar a minha esperança.
Trago um Fado no meu canto,
Canto a noite até ser dia
Do meu povo trago o pranto
No meu canto a Mouraria
Tenho saudades de mim
Do meu amor mais amado
Eu canto um país sem fim
Ao ouvi-la, num misto de nostalgia e enleio, senti saudades de mim, mas voltei, por breves instantes, a ser aquela que deixei no seio do meu país sem fim. O que experimentei na sala do Concert Hall, em Brisbane, foi algo singular e jamais sentido, nos 26 anos da minha vivência, neste longínquo continente. Obrigada, Mariza!