A luz espraia-se preguiçosa
Nas alvas paredes do convento
E os viçosos cumes estremenhos
Pintados no sereno firmamento
Ecoam murmúrios de preces
Arrastadas na poeira do tempo.
No remanso cálido do claustro
O dia desenha-se com vagar
Perdido fica o compasso da hora.
Escutando os cadenciados gorjeios
E a voz branda da fonte a suspirar
Fala-se em português pela noite fora.
Entre risos, frustrações, esperança
Os alunos estudam com afinco e garra
Afasta-se o medo, nasce a confiança
Numa partilha de coloridas histórias
Na Imersão Linguística de La Parra
Nas fotos ficam cativas as memórias.
Conversa-se com brio na língua lusa
Num convívio ibérico de aplaudir
Esquecem-se querelas ancestrais
Afinal aprender acaba por divertir
E sobra o desejo de saber mais.

Gosto deste sentir
que há em mim
da vaga
que agita o meu viver
e no corpo deixa
um mar sem fim
que é o desejo
de te ter.
Gosto do que existe
entre nós
ainda não sei
que nome lhe dar
é rio que desagua
em verde foz
é janela aberta
de par em par.
Amor gosto
de te gostar
não me perguntes
a razão
gosto do que me diz
o coração
Dá-me prazer
este meu gostar.

Queria-te
sem nome te dar…
quando o sol
ficava frio no empedrado
e o vento
se perdia pelas vielas
sem ter uma colina
onde repousar.
Queria-te
sem nome te dar…
quando o horizonte
era uma linha trémula
traçada a lápis sem cor
no papel rasgado
e eu desejava
ser capaz de desenhar.
Queria-te
sem nome te dar…
nesse tempo
de luares sem brilho
nas noites
apodrecidas pela solidão
com o medo
a levar-me para outro lugar.
Hoje quero-te
e tenho nome para te dar
estás no sol
que nunca arrefece
estás no vento
que já se encontrou e repousou
no horizonte
que não desenho mas vejo
no luar
que reflecte o teu olhar
e onde reconheço quem fui
antes de fugir de mim
e me ter esquecido de sonhar.