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7 de Setembro de 2010

28 de Abril de 2007

A ambígua liberdade

by Julieta Ferreira — Categories: CrónicaSem Comentários

Muito se tem falado e escrito sobre a liberdade, quer seja em termos de falta dela, como no excesso ou abuso dela.
Mas o que é, no fim de contas, a liberdade?
Segundo a definição do dicionário, é a condição do ser que pode agir livremente, isto é, consoante as leis da sua natureza (queda livre), da sua fantasia (tempo livre), da sua vontade (decisão livre).
Será assim tão linear? Será de facto possível para qualquer ser humano agir livremente, seguindo as leis da sua natureza, da sua fantasia, ou ainda, da sua vontade?
Muitos filósofos e pensadores se têm debruçado sobre esta temática e apresentado diferentes ideias.
Por exemplo, Descartes acha que as pessoas ignorantes são menos livres do que as pessoas mais esclarecidas, pois estas terão mais alternativas de escolha. Para Kant, ser livre é ser autónomo e, como tal, dar a si próprio as regras que deseja seguir. Sartre pensa que a liberdade é uma condição ontológica do ser humano; o homem é, antes de tudo e em essência, um ser livre.
Será? Será que o homem é um ser livre, à nascença? Será que a liberdade é uma condição inata da sua natureza?

Duvido. Para mim, a liberdade, tal como muitos outros estados dos humanos, adquire-se, à medida que as nossas faculdades intelectuais, psíquicas e emocionais se vão desenvolvendo, vamos estando em contacto com um número de experiências e também com a obtenção de uma maior independência e, digo maior porque, em realidade, a independência total não existe.
Não é verdade que, desde que nascemos, estamos condicionados por factores e leis externas, incontroláveis, que nos dificultam o usufruto dessa tal liberdade a que aspiramos tanto? Primeiro são os pais e/ou educadores, mais tarde as múltiplas regras e leis da sociedade e dos vários grupos em que nos afiliamos, com os seus inerentes estatutos.
É claro que somos livres de escolher: ou seguimos as leis que nos são impostas ou, por outro lado, viramos as costas e decidimos fazer aquilo que a nossa natureza e vontade nos ditam e, segundo Kant, fabricaremos as nossas próprias regras. Se assim o fizermos, não seremos condenados a viver sem a pouca liberdade que tínhamos antes?
Nem sempre, ao que parece. Há muitos que, desafiando essas leis, em nome de uma liberdade que, a todo o custo, desejam salvaguardar, acabam por ser ilibados, embora tenham cometido crimes contra a liberdade e direitos de outros, só por causa de uns tantos erros técnicos, durante o processo judicial. E assim continuarão a usufruir de uma liberdade injustamente concedida para que a usem, causando mais dano e sofrimento a muitos.
Há mesmo nações, que se apelidam, com muito orgulho, de nações livres, e julgam ser detentoras da supremacia e conhecedoras do que melhor servirá certos povos para a aquisição de um estado livre que carecem. Para isso, num gesto magnânimo de ajuda, empenham-se em criar uma sociedade livre, em território alheio, passando por cima das vontades dos seus habitantes. Irrisório, não vos parece?
Alguém disse que “ser totalmente livre é impossível porque ninguém consegue viver sem limites” e ainda li algures que “a verdadeira liberdade é um acto puramente interior”.
Estou de acordo com estas duas asserções e acrescento que a única verdadeira liberdade, indestrutível e total, é a liberdade de pensamento. Seja onde for, qualquer que sejam as circunstâncias, podemos fruir dela.
Ser-se livre é, acima de tudo, a afirmação da nossa identidade e a liberdade é um estado interior que se pode adquirir, mesmo quando estamos sujeitos a limitações físicas, condicionamentos sociais e imposições do meio exterior.

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