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A Escola dos Azulejos

Não se recorda dos azulejos?Perguntou-me a senhora ainda jovem que tinha aberto a porta, minutos antes, para entregar uma criança à mãe. Eu esperara, de coração a pular, depois de ter subido as escadas que descobrira, por acaso, na descida pela Rua do Telhal. Tinha ido num dos meus habituais passeios pela cidade, captando imagens no telemóvel, num percurso que me levara, mais uma vez, aos recantos da minha infância. Em vez de descer a Calçada do Lavra, escolhi antes a Calçada do Moinho de Vento. No seguimento desta, lá estava a Rua do Telhal. Um portão aberto a dar para uma escadaria, despertou a minha atenção. Foi quando reparei numa placa, afixada na parede, e compreendi. Nem queria acreditar. Então, estas eram as escadas que tinham acesso à Escola de São José, magnificamente situada na encosta do Jardim do Torel!

A senhora, de mão firme na porta entreaberta, tinha um olhar amorfo. Desejei que se tivesse comovido com a explicação que lhe dera, para justificar a minha presença ali. Mas não. Apenas me forneceu uns dados mas não franqueou a entrada naquele recinto onde passara grande parte do meu tempo de menina. E eu que havia pensado que esta escola – a minha escola – já não existia! Fiquei a saber que foi inaugurada em 1945 e que se tornou conhecida por o seu interior estar recheado de azulejos avulsos da Viúva Lamego. Quando os vi, na parede de fundo, a uns metros de distância da entrada, reconheci-os, sem nunca ter pensado neles, durante mais de quatro décadas.

Nos escassos segundos em que permaneci de olhos presos aos desenhos garridos, tentei rever-me, ao mesmo tempo que abanava com a cabeça e murmurava, de forma atabalhoada, estar a recordar-me dos azulejos. Em boa verdade, estava a recordar-me de muito mais do que isso. Mas não desejava abusar da paciência daquela senhora que não teria qualquer interesse em entender a importância daquele breve momento, num fim de tarde calmoso.

1 comentario a A Escola dos Azulejos

  • M. Eduarda Gonçalves

    Há momentos que recuperamos bem do fundo do nosso passado, tão nítidos, apesar da distância, tão cheios de nós mesmos que quase se fundem com o presente e até ajudam a dar-lhe sentido.
    Terá sido este um exemplo?
    Um abraço amigo da
    Eduarda

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