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7 de Setembro de 2010

30 de Setembro de 2007

A Escrita

by Julieta Ferreira — Categories: CrónicaSem Comentários

“Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e o representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida – umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana. Não é o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso”.

Fernando Pessoa, in ‘Livro do Desassossego’

Recordo-me dos tempos de miúda, quando tinha de redigir composições sobre os temas que a professora escolhia e que me davam volta à cabeça. Esse foi também um tempo em que a minha mãe me contava histórias e lia, para mim, contos maravilhosos que me encantavam. Tanto a minha professora como a minha mãe abriram uma porta para um mundo pelo qual viria a apaixonar-me.
A leitura e a escrita começaram, muito cedo, a fazer parte da minha vida e ofereceram-me um espaço que passou a ser só meu.
Aceitei o desafio das redacções para a escola, sempre com renovado entusiasmo, descobrindo uma infinidade de sentidos no que me rodeava e dando largas à minha imaginação. E o prazer de escrever passou a superar o desejo de agradar à professora e de ser galardoada com notas altas. Para além das palavras tomarem forma no papel, elas ganharam vulto na minha mente, construindo histórias fantásticas que me acompanhavam por todo o lado.
Lembro-me das inúmeras ocasiões, sentada à mesa, à hora da refeição, com a família à minha volta, e eu em silêncio, alheia às conversas e a tudo o mais, seguindo a fantasia de uma narrativa que brotava no meu pensamento.
À tardinha, sentava-me na sala, com um livro que devorava, empolgada, transportando-me para outros lugares, na companhia das personagens, fazendo parte da acção.
Sem dúvida que tanto a leitura como a escrita são actos solitários e silenciosos. Porém, com a diferença de não estarmos sós e, sem falarmos, encetarmos um diálogo com vários interlocutores. Ao mesmo tempo, vamos confrontando verdades acerca de nós próprios que desconhecíamos; vamos renascendo e crescendo; vamos libertando-nos de amarras do passado; vamos redescobrindo o mundo e os outros.
O que se escreve hoje pode não ter a ver com o momento presente, contudo é sempre um reflexo das nossas vivências; do nosso sentir numa dada altura; daquilo em que acreditamos; do que nos faz vibrar e questionar.
A escrita é o melhor espelho da nossa alma.

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