
“ Existem dois tipos de pessoas: os bons e os maus. Os bons dormem melhor de noite; os maus divertem-se mais quando estão acordados.” Woody Allen
Desde uma legião de heróis e super-heróis como Zorro, Robin dos Bosques, Super-Homem, até ao Universo Galáxico da Guerra das Estrelas ou ao Mundo Mágico do Senhor dos Anéis e Harry Potter, passando pela Epopeia Lendária da Múmia e a Saga do Tesouro Perdido, temos vindo a assistir ao uso do mesmo tema, como substrato de grandes produções cinematográficas. Embora de géneros diferentes, com mais ou menos efeitos sonoros e visuais, a maioria das películas que passam pelos ecrãs dos cinemas de todo o Mundo, apresenta o tema mais batido, discutido e controverso de todas as épocas – a luta entre o Bem e o Mal – .
E ainda sabendo, de antemão, que o desfecho de tais enredos – mais ou menos fantasiosos e inverosímeis – será, inevitavelmente, a derrota das forças maléficas ou do vilão às mãos dos heróis, cujo objectivo é sempre a defesa do Bem, continuamos, em arrebatamento, a correr para as bilheteiras, qualquer que seja a nossa faixa etária ou nível social. Direi mesmo que este é o tema que mais atrai as mutidões. É como se necessitássemos de provas repetitivas da supremacia do Bem sobre o Mal, uma espécie de garantia que apazigue as nossas dúvidas e temores e nos deixe mais pacificados. Saímos do cinema enlevados e gratificados e quiçá menos fragilizados, com a esperança sempre renovada de que haverá, algures, um herói para nos defender das forças maquiavélicas que fazem parte da outra metade do globo.
Pergunto-me se, embora, algumas das vezes, inconscientemente, não estaremos a perpetuar a doutrina maniqueísta do conceito dualista do mundo: de um lado o Bem, do outro lado o Mal.
Mas afinal que é o Bem e que é o Mal?
Esta é a pergunta repetida inúmeras vezes, através da História da Humanidade e, ao longo dos tempos, vários filósofos, pensadores, moralistas e doutrinadores tomaram diferentes posições, na tentativa de definirem esses dois conceitos que estão na base de todos os comportamentos humanos. Para muitos, a resposta encontra-se nos livros sagrados, de inspiração divina, disseminados pelas variadas religiões; para outros, a resposta reside no indivíduo, seguindo a teoria de Protágoras. Segundo este sofista de tendências democráticas, o homem é a medida de todas as coisas e cada um tem o direito de determinar, por si, o que é o Bem e o que é o Mal. Ainda que não haja uma medida pura, universal e indiscutível do Bem e do Mal, estabelecida desde o começo dos tempos e imutável no porvir, adoptar a teoria de Protágoras é perigoso, na medida em que poderia dar lugar ao caos. Contudo, de certo modo, estamos a fazê-lo quando associamos o bom ao agradável e o mau à dor ou desconforto, no contexto da interpretação do empirista e materialista filósofo inglês, Thomas Hobbes, que centraliza o conhecimento na sensação. Ora, poderemos então concluir que o aprazível para um, poderá ser o desprazer para outro e assim o bem de um será o mal de outro, confirmando a relatividade de tais conceitos.
Por sua vez, Aristóteles atribui ao homem a capacidade de distinguir o bem do mal, sendo essa capacidade o que especialmente o diferencia de outros seres. Podemos, no entanto, questionar tal conhecimento humano. Qual a sua origem? Em que se baseia essa distinção? Nos sentimentos, impressões e preferências pessoais? Na razão ou pensamento puro (se é que tal existe!)?
Serão os conceitos de Bem e Mal iguais, tanto para o homem materialista e ateu, como para o homem espiritual e crente? Não será o homem influenciado pelos seus preceitos religiosos e moralistas quando determina que um outro ser é mau? Poderá um homem, desprovido de um conceito de moral, formado pelo consenso da sociedade, praticar o bem? Poderá um outro homem, fervoroso seguidor de princípios moralizantes, praticar o mal? Sabemos, sem sombra de dúvida, que tal pode acontecer e, na realidade, acontece a todo o momento. Não há ninguém que seja sempre e totalmente mau ou bom. O Bem e o Mal coexistem em qualquer ser, seja ele crente ou descrente, materialista ou espiritualista. Tal como a doutrina defendida por Heráclito, segundo a qual existe uma unidade, continuidade e interdependência entre os opostos.
Por outro lado, só é possível conhecermos o mal se já tivermos conhecido o bem e vice-versa. Um existe em função do outro e para conhecermos a sua existência temos de os provar.
Se nos detivermos na afirmação do pensador do século XVIII, Edmund Burke – Para que o Mal triunfe, é apenas necessário que os bons não façam nada. – ficamos, de novo, com a ideia de que o bem pertence a um grupo de seres que praticam actos bons ou que, quando muito, têm a boa vontade para praticar tais actos. É quando essa vontade deixa de se manifestar que o Mal vence e alastra. Na ética Kantiana, a noção de boa vontade é central, sendo a única coisa que poderá ser considerada como Boa, sem quaisquer limitações.
Então, bastará a Vontade de fazer o Bem para definir uma pessoa como boa? E que dizer da vontade para fazer o Mal? Todos nós, em diferentes graus e situações diversas, teremos tido essa vontade, sem chegarmos à concetização da mesma. Será justo definir um ser como mau ou bom, apenas pela vontade?
Citando o ditado popular – De boas intenções está o Inferno cheio – afoito-me a concluir esta minha reflexão sabatina, com idêntico pensamento – De más intenções está o Céu cheio!!!!
E já agora, não nos esqueçamos que Ex Malo Bonum…
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Boa Noite, Jú
))
Pois…Kant dir-te ia que a boa intenção faz a boa acção. E que só é boa a acção que foi praticada com intenção de o ser (o filósofo não considera a intenção solitária, logo, concorda com a máxima popular). Quanto à vontade de fazer o mal…dizia-te que não é verdadeira vontade. Vontade é a força que te impele para o bem. Sempre que praticas o mal…a tua vontade submete-se às inclinações, aos apetites, ao que te agrada e compraz, deixa-se dominar. Não é ela que domina. O bem seria pois, o domínio da vontade boa, ou seja duma vontade racional, que faz o que deve. Isto é a resposta que Kant deu. A minha não é bem essa. A dualidade bem e mal existe, claro. Mas, na vida, Protágoras tem a sua razão e lugar. O homem é mesmo a medida de todas as coisas. E cada homem é uma medida, de acordo com a sua circunstância. claro que o bem e o mal instituídos são discutíveis, mas contribuem para a sobrevivência mais ou menos harmoniosa. As religiões, as sociedades laicas, fazem o seu papel na preservação do domínio das forças do bem sobre as do mal, qualquer sociedade radica nesse princípio. Em termos de moralidade…o mal é bem mais agradável, o bem tem cheiro a mofo e sacristia
beijitos