Houve hoje um momento, no meu dia, de grande significado: um daqueles momentos “altos” quando chegamos a concluir um projecto; quando nos sentimos mais leves; quando nos apetece ter a nosso lado alguém com quem nos possamos regozijar; quando nos dá vontade de bater as palmas e agir de uma forma pueril até.
Pois bem… aí vai: escrevi a última linha, na última página do romance a que tenho andado a dar forma!
Momento importante e contraditório, por razões várias.
Ora, se existe uma alegria pelo “chegar ao fim” de um trabalho que durou meses, também existe uma tristeza, semelhante àquela do leitor, ao dizer adeus a uma história que foi acompanhando e com a qual, muitas vezes, se foi identificando, ao ponto de pensar nas personagens como se fossem reais.
Vou sentir saudades dessas personagens que estiveram presentes no meu dia-a-dia, fazendo parte da minha vida, durante 6 meses: distraíram-me às refeições; acordaram-me durante a noite; insinuaram-se no meu pensamento, durante os treinos no ginásio; dialogaram comigo, no chuveiro. Houve dias em que não quiseram falar, numa obstinação teimosa que me deixava frustrada; houve alturas em que tomaram decisões e me deixaram o miolo às voltas para arranjar maneira de melhor as satisfazer; houve momentos em que mudaram o rumo à história e eu, sem bem entender, onde tudo iria parar.
Elas foram ganhando uma vida própria, independente de mim.
Vou sentir-lhes a falta! Vou sentir pena de ter chegado ao fim a nossa cumplicidade.
Contudo, este momento de hoje não se pode dizer que tenha sido o “acabar” da obra. É sim uma das etapas para a materialização do trabalho do escritor, como livro.
Agora, vou deixar repousar e esquecer as páginas arquivadas no computador; as folhas impressas ficarão na gaveta da minha secretária, durante algumas semanas, em estado de “hibernação”para, mais tarde, serem lidas, relidas e corrigidas.
Depois, o envio do manuscrito para o editor: mais revisão e correcção. E ele que corta, que pontua, que corrige algumas das expressões “à maneira inglesa” de que eu não me apercebo por essa língua fazer já parte de mim, há 24 anos.
Muitas leituras serão feitas por ambos até ao momento da entrega do texto na tipografia.
Então, chega a leitura final e é aí que já se vê o “bicho” (como a minha amiga Rita Ferro costuma dizer) na forma mais aproximada de livro! Esse é outro momento “alto” na vida do escritor. E, nesse momento, também há a dor da separação.
Agora já não há nada mais para fazer, para mudar, para acrescentar. Daí vai sair o livro que deixará de pertencer ao seu criador, tal como qualquer outra obra de criação.
Como os filhos, assim também são os livros.
E, a propósito, recordo as palavras de sabedoria do grande poeta Kahlil Gibran, quando diz:
“Your children are not your children.
…They come through you but not from you,
And though they are with you yet they belong not to you…”
No momento que o livro sai do prelo e dá entrada nas livrarias, passa a pertencer àqueles que o lêem. E o escritor distancia-se finalmente do que criou e embarca numa outra criação.
Até lá, vou ainda saboreando a “presença” das minhas personagens …
6 de Março de 2007

