
Os barcos de velas enfunadas e cores garridas, sulcando as águas mansas do Tejo. O azul de uma limpidez gritante a emoldurar a cidade, namoradeira e catita, naquela tarde de domingo. O Cristo Rei, de feição lavada, recortando-se com magnificência no horizonte que parecia ficar a duas polegadas de nós. O lisboeta e o turista a comungarem desse rasgo de Primavera que nos visitava sem ter marcado data e nos sorria, do alto das colinas.
E a luz… Ah! Essa luz a envolver-nos e a aquecer-nos a alma! E eu a sentir-me una, livre e plena com a felicidade, ao rodopio, dentro de mim. Voltara a usar botas altas que, por capricho do Destino, tinha encontrado, sem me ter dado ao cuidado de procurar. Os saltos altos a bater nas pedras calcárias, irregulares da calçada, e o cachecol a esvoaçar na brisa ribeirinha, pela Rua do Alecrim. Os óculos escuros escondiam o brilho intenso do meu olhar que abraçava o que via, num êxtase renovado.
No Chiado, que há muito não fazia, sofreei o passo para beber, em ócio, o ar que flutua por ali. O cheiro morno do café, a doçura de um perfume rosáceo, a lamúria dos carris, a dança de um pássaro, o ecoar de um passado nas figuras hirtas dos poetas.
O sol a beijar-me e a luz a sussurrar-me cânticos por versejar.
No cais, tocada pelo remanso do rio, abandonei minhas canseiras e alarguei meu devaneio. Liberta na dádiva do momento, eu sorvia, em delícia, a luz de tonalidades doiradas, na minha cidade branca.


Pois é, só quem calcorreia essas pedras, quem saboreia o típico e respira a brisa que vem do rio, pode apreciar a beleza verdadeira da “Lisboa de outras eras”, que teima em sobreviver, apesar dos constantes atropelos e barbaridades de que é vítima.