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7 de Setembro de 2010

2 de Setembro de 2007

Arte de Julgar

by Julieta Ferreira — Categories: CrónicaSem Comentários

Desde que os humanos começaram a coexistir, criou-se uma tendência para julgar todos e tudo: grupo e espaço exterior que consideramos como distinto e do qual não fazemos parte. Eu chamo a isso uma arte que se tem desenvolvido através dos tempos, refinando-se e ganhando posição de destaque, na sociedade dos nossos dias, através dos mais conceituados meios de comunicação e de uma moderna tecnologia. Só que, apesar da sua longevidade, contrariamente a muitas outras artes, não é digna de respeito ou de ser valorizada.
Quem são, afinal, aqueles a quem se dirigem os nossos juízos, tornando-se o alvo dos nossos ataques?
Coabitamos com alguns deles, socializamos e trabalhamos com outros, contudo a maioria nem sabemos quem são. O único conhecimento que temos vem-nos por vias, cujas fontes de informação são questionáveis, por estarem muito além da veracidade dos factos.
Mesmo aqueles que afirmamos conhecer bem podem, em qualquer situação ou momento, passar a ser estranhos, pelo curso de acções que, por nos parecerem inesperadas e fora do habitual, rotulamos de peculiares, anormais, até pecaminosas e criminosas.
Então, incapazes de arranjar uma explicação plausível para esses comportamentos, limitamo-nos a julgá-los e a criticá-los. E fazemo-lo porque nos julgamos superiores a essa forma de actuação e diferentes dos que a praticam, Afinal de contas os seus actos, injustificáveis e incompreensíveis, aos nossos olhos, vieram criar um desequilíbrio na nossa maneira de estar e de ver o mundo.
É isso que não lhes perdoamos!
A nós tão pouco interessa saber as razões do seu comportamento porque, deste modo, não seremos forçados a mudar a nossa maneira de pensar ou a questionar os motivos que nos levaram às conclusões a que chegámos e as quais acreditamos serem irrefutáveis. De maneira alguma queremos perturbar o casulo que já construímos e no qual nos sentimos comodamente instalados e protegidos.
Ainda há um ponto vital a considerar: a dúvida e a desconfiança, nossas tão queridas aliadas, manipulam a ténue vontade de acreditar e aceitar as razões dos outros, sejam elas quais forem. Isso também tem a ver com o facto de ser bem penoso admitirmos que, afinal, errámos nos nossos julgamentos. Como assim, se nós nos conhecemos tão bem, se sabemos, sem sombra de dúvida, discernir sobre o que é ou não é aceitável e, ainda para mais, nos consideramos uns peritos em matéria de fazer as escolhas certas e justas? A ideia que se enraizou na nossa mente teve origem num sistema de educação moralizante e, algumas das vezes, também religioso e cultural, e foi sendo fomentada, ao longo dos anos, por um conjunto de valores que, só por serem os nossos, passámos a considerar irrepreensíveis.
E é assim que nos transformamos em verdadeiros artistas desta arte de julgar que usamos e aperfeiçoamos todos os dias. Como todo o artista, também nós requeremos uma audiência.
E que melhor palco, para conquistar um público atento e que nos aplauda, do que o palco da Vida?

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