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Carta a um ex-amante (Parte I)

Ainda não te esqueci. Acho mesmo que nunca irei esquecer-te. Já lá vão mais de três anos e conservo-te bem presente na minha memória. Às vezes tenho dificuldade em me lembrar dos traços do teu rosto ou das particularidades do teu corpo mas a recordação do tempo que passámos juntos está bem viva. Pode até ser que os detalhes desse breve interlúdio se tenham diluído porque a mente prega-nos partidas. Ah! Queres saber porque chamo interlúdio ao que se passou entre nós? Talvez seja porque não quero chamar-lhe caso por ser uma palavra fria, indefinida, descolorida, sem melodia. Também porque tantos outros a usam e abusam. E ainda porque me parece que um caso tem mais a ver com acaso. Conheces bem (desculpa o uso do presente … ainda me custa a aceitar que ficaste no passado) a minha aversão pelo acaso. Tanto que falámos sobre isso! Bem, não tanto assim, porque apenas nos encontrámos uma meia dúzia de vezes. Mas isso não importa. Acredito que houve uma razão para que nos conhecêssemos e nos amássemos. Está bem, o verbo amar é capaz de ser demasiado forte, mas já lá vamos. Primeiro, quero explicar-te porque escolhi o vocábulo interlúdio. Ou terei mesmo de te explicar? Decerto continuas a ser um apreciador de ópera e não precisas que seja eu, uma ignorante da matéria, a dar-te lições de música. Sim, é isso. A nossa relação (debati-me com a escolha desta palavra mas vou deixar ficar) foi como um pequeno trecho musical que serviu de intervalo entre dois actos ou capítulos das nossas vidas. Estou a falar no plural mas seria mais acertado falar aqui apenas na minha vida. Que sei eu acerca da maneira como interpretaste esse dito interlúdio? Só posso falar por mim. Nunca sabemos verdadeiramente o que o outro sente ou pensa. E mais ainda no que diz respeito a ti. Porquê? Porque tal como apareceste, desapareceste. Vieste do virtual e tornaste-te real mas nunca chegaste a ser de uma realidade total, verdadeira. Acho até que fui eu a conferir-te uma realidade, à minha maneira.

Não estás a compreender? Cá estou eu a filosofar, pensarás, um pouco irritado. Já esqueceste que costumávamos filosofar juntos, naqueles momentos de abandono em que repousávamos, sobre os lençóis em desalinho, de corpos suados e rostos brilhantes? Só quando partiste é que não filosofaste. Nem uma explicação me deste. Tu que nunca foras escasso nas tuas dissertações que me deixavam enlevada! Mas quando decidiste não me ver mais, usaste, cobardemente, uma lacónica mensagem, no telemóvel. Sempre achei que os homens são muito cobardes. Nunca entendi esse estereótipo de pertencerem ao sexo forte. Tretas! Cá para mim e, decerto para muitas outras mulheres, isso não passa de uma imagem que se criou e sem qualquer fundamento. Sem dúvida, criada pelos homens.Também sou adversa a noções generalizadas que inserem os indivíduos em grupos. Como se fizéssemos parte de um rebanho. Já observaste alguma vez um rebanho? Talvez não. Eu nunca o fiz mas sei que, embora as ovelhas pareçam ser todas iguais, o pastor reconhece-as, individualmente. Olha, estou a afastar-me do assunto, com este gosto que tenho de fazer comparações e servir-me de metáforas. Deve ser ossos do ofício. O pior é que, desde que te vi partir, não consigo deixar de comparar e analisar. Isso é mau. Sei que não o deveria fazer mas dou por mim a procurar-te nos homens que passam pela minha vida. Passam é o termo mais acertado, porque não permanecem e, se chegam a ficar por algum tempo, nunca ocupam o lugar que eu te dei. Tu serves-me de bitola porque foste a minha última paixão. Sim, é isso. Antes, dissera que nos tínhamos amado mas o que se passou entre nós teve muito mais a ver com paixão. Não achas? Porventura já te esqueceste ter-me dito – depois de muita insistência da minha parte, para que eu pudesse entender o teu afastamento repentino – que as paixões são assim mesmo: começam de uma forma arrebatada, como as labaredas de um fogo a atear e, num instante, sem o pressentirmos, deixa de nos aquecer e de brilhar porque se esvanece. E só nos apercebemos de que se extinguiu pela sensação de frio que resta. Terias sentido esse frio? Lembro-me que, naquela tarde de Verão, depois de ler a tua mensagem, fiquei enregelada e senti a escuridão. A luz e o calor tinham-se apagado.

Recordas-te da minha convicção de existir uma razão por detrás de todos os encontros e de tudo o que nos acontece? Tu também concordavas comigo. Não sei se para me agradar. Agora tanto faz. Acreditei que comungávamos certas crenças e por isso me senti ainda mais unida a ti. Tenho pensado, muitas vezes, na razão do nosso encontro e fico sempre com a ideia de que foi para eu viver hoje com a memória de ti, ou antes, com a memória daquela que eu fui quando me apaixonei por ti. Tenho saudades tuas mas ainda tenho mais saudades de mim, do que então senti e da mulher que fui nos teus braços. Tu entraste de rompante na minha vida, com aquele ar de homem-menino, olhar sedutor, gestos descontraídos, exalando uma juventude e sensualidade que me deixaram desarmada. Tu eras muito mais novo e fui eu que passei a comportar-me como uma adolescente. Vieste para me lembrar que eu ainda era jovem e não havia morrido em mim o desejo de voltar a ser mulher e amante. Percebes? Tu ofereceste-me muito mais do que possas imaginar. Devolveste-me aquela que eu julgara perdida.

Continua….

2 comentarios a Carta a um ex-amante (Parte I)

  • julieta

    Saudade? Presente no passado, belo texto. Faz-me lembrar de algum tempo atrás (9anos), passou-se também comigo.
    jufaria

  • Olá, querida Ju:
    Se não te conhecesse ficava boquiaberto. Felizmente, conheço-te e sei que escreves maravilhosamente, usando as palavras certas, por vezes como farpas da verdade.
    O amante, real ou ficcionado, foi um homem de sorte. Tivera eu a tua audácia e eloquência e escreveria também cartas a ex-amantes, ou talvez melhor, a pessoas que por nós passam e deixem algo!
    Como não sou, deixo aqui este texto, não dirigido a ninguém, mas ao mesmo tempo a todos nós, que algum momento sentimos uma espécie de solidão:

    This is for all the lonely people
    Thinking that life has passed them by
    Don’t give up until you drink from the silver cup
    And ride that highway in the sky

    This is for all the single people
    Thinking that love has left them dry
    Don’t give up until you drink from the silver cup
    You never know until you try

    Well, I’m on my way
    Yes, I’m back to stay
    Well, I’m on my way back home (Hit it)

    This is for all the lonely people
    Thinking that life has passed them by
    Don’t give up until you drink from the silver cup
    And never take you down or never give you up
    You never know until you try

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