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Carta a um ex-amante (Parte II)

Estarei a dar-te demasiada importância? Ou estarei a perpetuar uma mágoa que já devia ter sarado? Que queres? Gosto muito de me lembrar de nós! Gosto de recordar aqueles pequeninos nadas que deram tanta cor ao tempo em que vivi enredada, na teia do teu feitiço. Lembro a musicalidade dos nossos risos quando assistíamos a um programa de televisão que apresentava canções dos anos sessenta. Tu comoveste-te com o meu incontido entusiasmo e a minha verbosidade. Falo sempre muito quando estou feliz. Costumavas gracejar acerca do meu tempo, devido à diferença de idades. Eu não me importava. Nada podia estragar o momento. Porque era simplesmente…. perfeito! Claro que estou a exagerar. Exagera-se sempre quando estamos apaixonados. É um dos privilégios da paixão. Assim como ficarmos cegos aos pormenores que estão lá, a dar-nos um indício do iminente final. Só mais tarde, depois de tanto analisarmos, é que nos damos conta. No nosso caso, por mais que tenha analisado, nunca consegui ver esses sinais. Por isso foi tão diferente na sua unicidade. Está bem, sou capaz de estar a cair num dos lugares comuns que procuro evitar. Eu sei. Cada caso é único e diferente. Vá lá, não te enfasties. Sê indulgente. Deixa-me ficar com o pensamento de que o nosso foi um caso invulgar.

Eu não teria sido mais do que uma das tuas conquistas. Olha, sabes, nem esse facto me causa estranheza ou dano. Até fico grata. Sim, não duvides nem te espantes. Além do que me deste e me fizeste sentir, tens servido para suavizar a minha solidão. E mais. Tens sido a minha musa. Não te rias. Esse riso serve apenas para mascarar a tua perturbação ou fraqueza. Já não tens de disfarçar ou mentir. Tudo terminou há muito tempo. Hoje não passas de uma imagem e uma ideia. Nem fotografias ficaram para te tornar mais convincente. E para quê? A quem quero provar a tua existência? Talvez a mim própria. Não pensei na falta que me fariam quando, num instante de raivosa decepção, arremessei as tuas fotografias, no lixo. Inúmeras vezes, tenho lamentado esse acto impensado. Li algures que as fotografias não mentem. Há momentos em que necessito da verdade que elas continham. Fico carente da história que elas contavam; dos instantes sem mácula que elas captaram e ficaram para sempre cativos numa representação estática. Ao destruí-las, julguei que seria mais fácil apagar a memória de ti. Que disparate! Desconhecia então o quanto essa memória iria valer-me. Com ou sem fotos.

Continuo a procurar uma paixão igual à que senti por ti. Procura vã. Nada se repete da mesma maneira. Ainda que voltasse, um dia, ao refúgio dos teus braços, já não seria o mesmo. Não seria idêntico ao que experimentáramos antes. Quem sabe, em face da realidade, se desvanecesse a imagem que construí, na tua ausência? Quem sabe se eu ficasse finalmente resgatada e pudesse ver-te sem os adornos da minha imaginação?

1 comentario a Carta a um ex-amante (Parte II)

  • Querida Ju:
    Como soi dizer-se: “quem procura sempre alcança!”. Mais tarde ou mais cedo, no país que amas, encontrarás alguém que te apagará as memórias desse amante sobre que tão bem escreves e com o qual foste feliz e, por certo, também ele.
    Não sei se ele lê as tuas cartas, mas se o faz, estará feliz com que o que deram um ao outro.
    E isso é que importa, no fim de contas.
    Beijos

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