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Cartas de Amor

Será que as cartas de amor são uma coisa do passado? Como sabemos, é já muito rara a escrita à mão em papel, em formato de carta. Isso deve-se ao uso frequente e, muito preferido, hoje em dia, da Internet e do correio electrónico. A comodidade e a velocidade, aliadas a uma menor formalidade, têm favorecido este meio de comunicação. É claro que, nada nos impede, por e-mail, de extravasarmos as nossas emoções e fazermos declarações amorosas. Contudo, não será uma maneira muito mais impessoal que talvez careça das qualidades, geralmente atribuídas às antigas cartas de amor?
Na minha adolescência era frequente escreverem-se bilhetinhos amorosos que passávamos, muitas das vezes disfarçadamente, aos eleitos dos nossos desvelos e paixonetas. Havia um não-sei-quê de mistério e excitação na troca sub-reptícia dessas mensagens, escritas com grandes floreados e esmero. Depois, ficávamos, ansiosos, à espera da resposta que, por vezes, tardava pela falta de oportunidade. Hoje tudo isso mudou. Com a invasão dos telemóveis que trouxeram essa maravilhosa arma de SMS, ganhámos maior privacidade e rapidez mas perdemos, a meu ver, a beleza da escrita.
Quando foi a última vez que escrevemos uma carta de amor?

Deixo aqui uma das muitas cartas de amor, escritas por Fernando Pessoa a uma senhora de nome Ophélia Queiroz, no ano de 1920.

Meu amorzinho, meu Bébé querido:
São cerca de 4 horas da madrugada e acabo, apezar de ter todo o corpo dorido e a pedir repouso, de desistir definitivamente de dormir. Ha trez noites que isto me acontece, mas a noite de hoje, então, foi das mais horriveis que tenho passado em minha vida. Felizmente para ti, amorzinho, não podes imaginar. /…/
/…/ Vês, meu Bébé adorado, qual o estado de espirito em que tenho vivido estes dias, estes dois ultimos dias sobretudo? E não imaginas as saudades doidas, as saudades constantes que de ti tenho tido. Cada vez a tua ausencia, ainda que seja só de um dia para o outro, me abate; quanto mais hão havia eu de sentir o não te ver, meu amor, ha quasi três dias!
Diz-me uma cousa, amorzinho: Porque é que te mostras tão abatida e tão profundamente triste na tua segunda carta – a que mandaste hontem pelo Osorio? Comprehendo que estivesses tambem com saudades; mas tu mostras-te de um nervosismo, de uma tristeza, de um abatimento tães, que me doeu immenso ler a tua cartinha e ver o que soffrias. O que te aconteceu, amôr, além de estarmos separados? Houve qualquer cousa peor que te acontecesse? Porque fallas num tom tão desesperado do meu amor, como que duvidando d’elle, quando não tens para isso razão nenhuma? /…/
/…/ Ai, meu amor, meu Bébé, minha bonequinha, quem te tivesse aqui! Muitos, muitos, muitos, muitos, muitos beijos do teu, sempre teu
Fernando

Anos mais tarde, o seu heterónimo, Álvaro de Campos, escreveu o seguinte poema:

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Álvaro de Campos, 21/10/1935

Estudiosos de Pessoa e dos seus heterónimos têm formulado a hipótese da não existência da tal Dona Ophélia. É bem possível que as cartas de amor tenham sido mais um exercício literário e não correspondam à verdade. Não nos esqueçamos da complexidade deste grande vulto da nossa literatura. Contudo, não é minha intenção debruçar-me sobre este aspecto.
Supondo que as cartas são autênticas quanto aos sentimentos que exprimem e quanto à fraseologia empregue, note-se que só muitos anos depois, o poeta nos fala do elemento do ridículo.
Também nós pensamos que as cartas de amor são ridículas?

5 comentarios a Cartas de Amor

  • São Martins

    “Também nós pensamos que as cartas de amor são ridículas?” Eu, não.

    Haverá coisa mais linda que uma carta de amor? (com floreados ou sem eles…) Acho que não…
    Haverá coisa mais linda que uma folha de papel, manuscrita, em que é manifestado, implícita ou explicitamente um sentimento de amor?

    Que pena tenho que tenha caído em desuso o envio, via correio ou disfarçadamente, de cartas/bilhetinhos de amor… Bem, isto, digo eu… Os meus filhos não lhe sentem a falta…

    Aqui, para nós, que ninguém nos lê… Tenho uma caixinha onde guardo umas cartas de amor… Com que ternura as releio de quando em vez…

  • Cara São,
    Apraz-me muito ver que tem andado a ler-me e agora, com mais tempo, para me ‘descobrir’ em outras modalidades de escrita. Obrigada.
    Também me agrada saber que partilhamos a mesma opinião quanto a ‘cartas de amor’. Infelizmente, não fui favorecida nesse aspecto. Talvez um ou outro bilhetinho, nos tempos da minha adolescência que se perderam. Desde sempre, tenho sido eu a escrever :)
    Um abraço.

  • Rui

    Eis que, passados estes anos todos, dei por mim com vontade de escrever uma carta de amor à maneira antiga…carinhosamente dobrar o papel manuscrito,coloca-lo num envelope e o selar,passando com a língua na cola, enquanto com os olhos fechados imagino o rosto da pessoa que a vai receber, beijando-a em silêncio…
    No meu tempo,muitos bilhetes e cartas escrevi e recebi, dediquei poemas, versos, com aquela paixão e intensidade que se sente quando se é criança ou adolescente. Alguns, ainda rascunhos, guardei, e com aquele receio que um dia a tinta desapareça e já não as possa reler quando me apetecer, decidi passar para o formato digital, reescrevendo os textos no computador.
    Ao voltar novamente a ler o que escrevi, sorrio, rio-me por vezes, e claro, recordo esses tempos, e os romances que tive ou os desgostos…
    Concordo plenamente com as opiniões já aqui escritas, hoje em dia é raro se receber ou escrever uma carta de amor.
    Até eu, um pouco devido a minha profissão na área de informática, comecei a escrever no computador,em vez de escrever à mão. Com o decorrer dos anos,em vez de as imprimir e enviar pelo correio, começaram a ir por email, mais à frente as mensagens escritas no telemóvel.
    Depois de casar, penso que nunca mais escrevi nada, excepto novamente em mensagens pelo telemovel ou nos postais de aniversário.Mas em compensação, já enviei diversas vezes flores por um mensageiro com direito a postal muito romantico escrito à mão :-)
    O romantismo de antes ainda vive dentro de mim, apenas está mais adormecido, menos activo mas sinto falta dessa loucura, dessa paixão, desses sentimentos que nos elevam do chão e nos fazem flutuar até ao céu e de escrever cartas de amor…

  • rute

    eu gostei muito deste pequeno texto

  • rute

    adorei mas queria escrever uma carta po meu namorado mas não sei como.
    Ajude-me, pfv…

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