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	<title>Julieta Ferreira &#187; Conto</title>
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	<description>Romancista, Poetisa e Cronista</description>
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		<title>Desabrochar&#8230;</title>
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		<pubDate>Tue, 16 Feb 2010 14:44:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Julieta Ferreira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>

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<p>No curto espaço de tempo que decorrera desde que se conheceram, aquela era a segunda vez que ele lhe oferecia flores. Primeiro, tinha sido num dia em que o brilho do sol de inverno cobria a cidade. Ela falara muito, como era seu hábito, quando se emocionava, se sentia feliz ou sem jeito. Nesse princípio [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft" src="http://farm3.static.flickr.com/2078/2261615394_1463ca181c_o.jpg" alt="" width="242" height="190" /></p>
<p>No curto espaço de tempo que decorrera desde que se conheceram, aquela era a segunda vez que ele lhe oferecia flores. Primeiro, tinha sido num dia em que o brilho do sol de inverno cobria a cidade. Ela falara muito, como era seu hábito, quando se emocionava, se sentia feliz ou sem jeito. Nesse princípio de tarde, fitando, sem cerimónia, a profundez dos olhos dele, deixou-se embalar pela aliviosa intuição e provou, num inebriado estupor, o retorno da sua feminilidade. Contudo, esse dia que passaram a chamar, como cúmplices de uma história por desvendar, o <em>dia do eclipse</em>, tinha sido um teste para ambos. As flores que ele lhe ofertara, depois da revelação incómoda, de uma realidade cortante, pesaram-lhe nas mãos trémulas, ao sentir-se como folha outonal, desenraizada, solta, na voragem de um inesperado temporal. As flores ficariam a lembrar-lhe a esperança e a desilusão. Conservaram-se, airosas e luxuriantes, tal como se conservou nela o animado desejo de não renunciar a um sonho jamais perdido.</p>
<p>Agora a singela rosa branca fazia-a levitar, no silêncio partilhado de duas almas que se haviam reencontrado. Sim, porque ela soubera, desde o inicial encontro, que as almas de ambos guardavam a memória de um Tempo Outro e traziam em si a urgência de se buscarem. As palavras eram esparsas, não por falta de emotividade mas sim pela calma que já habitava nela. Era a serenidade que advinha de um regresso a si mesma; de um sentimento que brotava de uma antiga nascente mas agora fluía, renovado; da chegada a um cais que se reconhece e onde nunca se aportou. Era o reinventar do que parecera esquecido. Era o despertar de um sono não desejado. </p>
<p>Ele era o príncipe que vivera no fantasioso jardim da sua imaginação de menina. Ele era o homem que ela romantizara na solidão cerrada da sua realidade de mulher. Tanto lhe queria contar e beber-lhe as palavras! Tanto lhe queria dar e abrir o regaço para o receber! </p>
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		<title>Andamento moderado (Parte I)</title>
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		<pubDate>Mon, 06 Apr 2009 06:15:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Julieta Ferreira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>

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<p>Tinha eu três anos, quando o meu avô materno morreu. Foi a primeira vez que a minha mãe se separou de mim. Talvez por isso, a memória desses dias esteja ainda tão viva. Na altura, não compreendi a brusca partida dela. Nem a tristeza espelhada no seu semblante, sempre tão jovial. Nas semanas a seguir [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p> <img class="alignleft" src="http://fineartamerica.com/images-medium/girl-with-kitty-and-open-book-krassouline.jpg" alt="" width="216" height="139" /></p>
<p>Tinha eu três anos, quando o meu avô materno morreu. Foi a primeira vez que a minha mãe se separou de mim. Talvez por isso, a memória desses dias esteja ainda tão viva. Na altura, não compreendi a brusca partida dela. Nem a tristeza espelhada no seu semblante, sempre tão jovial. Nas semanas a seguir ao seu regresso a casa, passava horas infindáveis, sentada ao computador. Eu quedava-me, sem fazer barulho, a um canto, para não a perturbar. Gostava de olhar para ela e achava que até ficava mais bonita, quando escrevia. O mesmo se passava quando lia, à noitinha, as páginas que escrevera e eu tinha dificuldade em entender. Contudo, dava-me conta que era uma história diferente das outras. Às vezes, parava de repente e dizia-me que não podia ler mais. Dava a desculpa de estar cansada. A expressão dela mudava e eu apercebia-me que estava a esconder algo. Depois, num daqueles arrebatamentos, que me deixavam tão feliz, abraçava-me com muita força e cobria-me de beijos.</p>
<p>Só muito mais tarde, viria a ser publicado o livro que a minha mãe começara a escrever, depois da morte do meu avô. No dia em que completei dezoito anos, fui presenteada com o romance, onde eram revelados os segredos da minha família. Eu já tinha lido muitas daquelas páginas, às ocultas, mas não disse nada para não desapontar a minha mãe.</p>
<p>Foi quando nos mudámos para Lisboa que eu comecei a visitar, com assiduidade, os meus avós. Passava muitas tardes e alguns fins-de-semana, no prédio que alojara três gerações da minha família e onde os meus pais se tinham conhecido. Essas visitas passaram a ser imprescindíveis para mim. O terceiro andar era o meu lugar preferido. Foi ali que, acarinhada com desvelo pelos meus avós paternos, eu descobri a minha vocação para o teatro. A minha avó materna costumava queixar-se do pouco tempo que eu passava com ela. A minha mãe arranjava sempre desculpas, embora eu notasse que lhe era penoso lidar com tal situação. Mas ela compreendia a minha preferência. Tinha então nove anos e fora com a mesma idade que a minha mãe havia sido apresentada ao fascinante mundo das artes. Por isso ela era a minha aliada. Mesmo sem palavras, existia um mútuo entendimento entre nós, uma cumplicidade que me agradava sobremaneira.</p>
<p>Além da música e da dança, havia outras razões que me levavam a arranjar pretextos para visitar os meus avós. Uma delas era ouvir a minha avó falar do seu glorioso passado como bailarina e perder-me no escritório, no meio das fotos e relíquias de outrora que tinham também encantado a minha mãe. Ela nunca se cansava da minha curiosidade, sempre pronta a responder às minhas perguntas. Apenas quando eu mencionava a minha bisavó é que se mostrava agitada e falava pouco, especialmente se o meu avô estava presente. Mesmo para uma criança precoce, teria sido difícil compreender o bizarro triângulo amoroso que seria desvendado, anos mais tarde, pela escrita prodigiosa da minha mãe.</p>
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		<title>Prelúdio do Segundo Acto</title>
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		<pubDate>Fri, 03 Apr 2009 05:29:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Julieta Ferreira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>

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<p>O hotel estava apinhado de gente. Sentei-me no bar, a sós, por uns breves momentos. Precisava de pôr as ideias em ordem, depois das ocorrências dos últimos dias. Estava ainda em estado de choque e grande excitação. Puxei de um cigarro, sem ter de ouvir as reprimendas carinhosas da minha mãe. Passei os olhos pela [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft" src="http://3.bp.blogspot.com/_Vh_jDIC8Cww/SE_Y0muDEEI/AAAAAAAAAMo/dGmdDsNekaE/s320/figurative_girl_by_the_piano2_o.jpg" alt="" width="230" height="198" /></p>
<p>O hotel estava apinhado de gente. Sentei-me no bar, a sós, por uns breves momentos. Precisava de pôr as ideias em ordem, depois das ocorrências dos últimos dias. Estava ainda em estado de choque e grande excitação. Puxei de um cigarro, sem ter de ouvir as reprimendas carinhosas da minha mãe. Passei os olhos pela sala, esticando as pernas e inalando o fumo, com indolência e prazer. Lá estava o piano onde o meu avô tocara, noites a fio, durante a sua estadia na Ilha, há cinquenta anos. Tentei imaginá-lo, pelas fotografias, desse tempo, que vira tantas vezes, no álbum da minha avó. Senti um misto de admiração e afecto pelo homem que sempre me amimou e teve grande influência, na minha vida. Foi ele que despertou em mim o gosto pela música. O meu pai costuma dizer, com um orgulho mal disfarçado, que saio ao lado paterno da família, tendo herdado os dotes artísticos dos meus avós e bisavó. Mas não só. Da minha mãe, recebi um espírito criativo e uma tendência para viver num mundo fantasioso. Foi por isso que ingressei numa Escola de Teatro e Dança e, dentro de dias, iniciarei os ensaios para a peça a estrear na próxima temporada do Teatro Nacional. Pela primeira vez, terei o papel de protagonista.</p>
<p>Quando tinha nove anos, resisti à mudança para Lisboa, imposta pelo trabalho do meu pai. A minha mãe, ao contrário, não ocultou o entusiasmo que sentia com o regresso às suas origens. Costumava ouvi-la contar muitas histórias sobre o prédio onde crescera e sobre as vidas das vizinhas. Nesse prédio, que visitei, esporadicamente, antes da deslocação para a capital, continuavam a viver a minha avó materna e avós paternos. Sabia também que ali tinham morado as minhas bisavós: uma delas havia sido cantora de ópera e a outra tivera uma vida apagada e triste, na companhia de três irmãs. Das histórias contadas pela minha mãe, ficara sempre a dúvida acerca do que era real ou inventado. Nunca consegui fazer a distinção entre essas narrações e as que ela escrevia, quase todas as noites, no computador; mais tarde, eram publicadas e apareciam nas livrarias. As outras não. Só eu as conhecia. Essa era a única diferença. Isso julgava eu, então. Hoje sei que as histórias da infância da minha mãe eram verdadeiras. Também sei que a mudança para Lisboa foi o melhor que me poderia ter acontecido. Porém, nem sempre pensei desse modo. No dia em que deixei o Porto, chorosa e abatida, estava longe de imaginar o que o futuro tinha guardado para mim.</p>
<p>Depois de ter bebido, de um trago, um martini muito fresco, vou até ao piano. Folheio as pautas, ao acaso, com o pensamento ausente. Deixei os meus pais e avós, no quarto do hotel, a prepararem-se para a noite de gala. Faltam poucas horas para a celebração do novo milénio. Por várias razões, esta vai ser uma noite muito especial.</p>
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		<title>Abertura em dó maior (Parte II)</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Mar 2009 07:14:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Julieta Ferreira</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<p></p>
<p>Acordou cedo, com a mão do marido descansando na sua anca e o bafo quente da respiração dele, a roçar-lhe o ouvido. Aquela cama era demasiado pequena para os dois mas tinha preferido ficar ali. A mãe insistira para que dormissem no seu quarto e mostrara-se melindrada, em face da imutável recusa dela. No entanto, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft" src="http://farm1.static.flickr.com/199/455776086_d0b1661d84.jpg?v=0" alt="" width="225" height="276" /></p>
<p>Acordou cedo, com a mão do marido descansando na sua anca e o bafo quente da respiração dele, a roçar-lhe o ouvido. Aquela cama era demasiado pequena para os dois mas tinha preferido ficar ali. A mãe insistira para que dormissem no seu quarto e mostrara-se melindrada, em face da imutável recusa dela. No entanto, logo se esquecera e continuara no seu habitual torpor que os deixava inibidos. Até começava a inquietar-se sobre o estado mental da mãe. Sabia que não aprovara o casamento dela com o filho da professora de dança. Era sempre assim que a nomeava, embora as aulas tivessem terminado, há muitos anos. Também não esquecera o incomodativo desagrado que manifestara quando ela tinha decidido ir morar no Porto, na vivenda, herdada pela sogra. Ou ainda os protestos contra as constantes deslocações ao estrangeiro. Acima de tudo, a mãe nunca lhe perdoara o envolvimento que tivera nas vidas das vizinhas e o facto de ter guardado, para si, os segredos delas. </p>
<p>Levantou-se, cautelosamente, para não o acordar. Abriu a última gaveta da cómoda, de onde tirou um caderno que encontrara, no dia da chegada, entre as velhas camisolas, a cheirar a naftalina. Sentou-se, junto à janela. O sol começava a raiar. A rua estava deserta e silenciosa. Olhou para as páginas e sorriu ao deparar com a límpida e ordenada caligrafia. Recordou-se que principiara a escrever, na noite em que ouvira a tia contar a história do General. Muitas vezes, tinha pensado naquele caderno que julgara perdido. No formoso rosto, de linhas perfeitas, assomou um lampejo de excitação, à medida que o ia folheando. Quando acabou a leitura, recostou-se na cadeira, respirando fundo, de expressão ausente. Ficara emocionada com a maneira simples e cândida das suas próprias palavras. A profundidade dos pensamentos e reflexões, expressos naquelas páginas amarelecidas, fizera com que ela recuasse no tempo. Relembrou, com minúcia, os factos ocorridos, vinte anos atrás. </p>
<p>Nos últimos dez anos, tinha-se dedicado a escrever histórias infantis e recebera alguns prémios literários. Muitos dos seus livros tinham sido traduzidos em várias línguas. Contudo, sentia uma contínua insatisfação. Sempre desejara produzir uma obra diferente, de outro género. No despontar do dia em que o pai ia a enterrar, ela encontrou a inspiração para a escrita do romance que, mais tarde, viria a ser um best-seller.</p>
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		<title>Abertura em dó maior (Parte I)</title>
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		<pubDate>Sat, 28 Mar 2009 06:51:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Julieta Ferreira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>

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		<description><![CDATA[<p></p>
<p>Raramente entrava numa igreja. Quando o fazia, era durante as horas em que os crentes estavam mais preocupados com a materialidade das suas vidas. Gostava do recolhimento solitário e fugia de tudo o que fosse congregação. Seria talvez egoísmo, como se quisesse Deus só para si ou, quem sabe, seriam as recordações das manhãs de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft" src="http://fineartamerica.com/images-medium/young-girl-playing-piano-krassouline.jpg" alt="" width="216" height="245" /></p>
<p>Raramente entrava numa igreja. Quando o fazia, era durante as horas em que os crentes estavam mais preocupados com a materialidade das suas vidas. Gostava do recolhimento solitário e fugia de tudo o que fosse congregação. Seria talvez egoísmo, como se quisesse Deus só para si ou, quem sabe, seriam as recordações das manhãs de domingo, da sua infância. Nunca compreendera os rituais vazios de significado ou os semblantes carrancudos, falhos de emoção. Possivelmente também acreditava que Ele a ouviria melhor se fosse ela a única a visitá-lo. O certo é que nunca conseguira estar completamente a sós, na casa dele. Muito menos, naquele momento. E era quando ela precisava mais dessa intimidade com Deus. Nessa noite, teria de partilhar não só Ele, como também o pai.</p>
<p>De pé, com o braço do marido, carinhosamente, a rodear-lhe a cintura, cumprimentava conhecidos e desconhecidos. Sentia o calor do seu corpo, a pressão reconfortante dos seus dedos e apoiou-se mais nele, como se, de súbito, lhe faltassem as forças. Mal tinham podido falar, desde que ele chegara de Londres, onde tinha ido a uma reunião europeia de antropólogos. Ao mesmo tempo, aproveitara para assistir a uma palestra sobre música que o pai dera, na Universidade de Cambridge. Os pais tinham regressado a Lisboa com ele, a fim de estarem presentes no funeral. Ela moveu os olhos na direcção deles, sentados do outro lado daquela sala fria, onde as velas ardiam lentamente e o cheiro das flores era asfixiante. Falavam baixinho, de mãos entrelaçadas, como se nunca tivesse havido uma separação de quinze anos e o amor entre eles fosse intemporal. Era um amor assim que ela gostaria de ter presenciado entre o pai e a mãe. Olhou para a mãe, entre os apertos de mão maquinais e os fracos sorrisos que ia distribuindo, por aqueles que desfilavam, numa soturna procissão. Lá estava, a um canto, o corpo mirrado e os olhos enxutos, poisados no vácuo. Sentiu pena dela. Não a compreendia mas lamentava-a. Nunca tinha recuperado completamente do violento choque da morte do avô, durante o Verão em que ela decidira aprender a tocar piano. O que começara como uma desculpa para passar mais tempo em casa das <em>manas</em>, veio a tornar-se uma paixão. Tinha feito exames no Conservatório e passado com mérito. A mãe sempre achara que era um capricho e uma perda de tempo. Como costumava dizer, a música não sustentava ninguém. Na sua opinião, artistas eram, na maioria, libertinos e não mereciam o respeito dela. Por sua vez, o pai sentia muito orgulho nela e em tudo o que fazia. No quarto do avô, transformado em escritório, ele colocara, na parede, um retrato dela a tocar piano. Na véspera, sem dizer nada à mãe, removera a moldura. Assim como não lhe falara sobre a visita que fizera à <em>madame</em>, agora reduzida a um farrapo, imobilizada numa cadeira de rodas. A alegria de a ver, tinha trazido uma débil cor à sua face macilenta.</p>
<p>Voltou à realidade do momento, com a chegada dos tios. Como sempre, faziam-se notados pela exuberância dos seus modos, mesmo tratando-se de uma ocasião propícia à sobriedade. Ignoraram a presença dela e dirigiram-se à mãe. Como o tio padecia de surdez, falava mais alto do que qualquer outra pessoa. Conseguia ouvi-lo, desculpando-se, atabalhoadamente, pela ausência do filho. Não perdeu o ensejo de acrescentar, com um orgulho não disfarçado, que o rapaz estava no Mónaco, em preparação para a próxima temporada da <em>Fórmula Um</em>. A tia deixou cair o corpo pesado numa cadeira e, fazendo sinais burlescos para calar a verbosidade do marido, lamentava-se, à cunhada, da irresponsabilidade do seu querido rebento.</p>
<p>A mãe conservou o seu ar apático. O irmão e a cunhada já não a perturbavam. Nela também deixara de existir o desconforto de outrora, na presença dos tios. Olhando o rosto sereno do marido, com ternura, não conseguiu deixar de sorrir, zombeteira. Imaginou o que o pai estaria a pensar, como espectador do seu velório.</p>
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		<title>Intermezzo</title>
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		<pubDate>Thu, 26 Mar 2009 06:55:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Julieta Ferreira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>

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		<description><![CDATA[<p></p>
<p>Encostada à ombreira da porta, observava a mãe: costas mais curvadas, pelo peso dos anos e da canseira; cabelo ralo, coberto de fios prateados, apanhado num carrapito a fazer-lhe lembrar a avó. Via-lhe o perfil, semi-iluminado pela luz do fim da tarde, daquele dia de Outono. Notou as rugas finas na testa inclinada sobre a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft" src="http://bednarik.net/images/22__At_the_sewing_machine_the_artists_wife.JPG" alt="" width="284" height="185" /></p>
<p>Encostada à ombreira da porta, observava a mãe: costas mais curvadas, pelo peso dos anos e da canseira; cabelo ralo, coberto de fios prateados, apanhado num carrapito a fazer-lhe lembrar a avó. Via-lhe o perfil, semi-iluminado pela luz do fim da tarde, daquele dia de Outono. Notou as rugas finas na testa inclinada sobre a máquina de costura, os lábios secos e gretados tolhidos de sorriso; as mãos magras e industriosas aplicadas sobre o tecido, movendo-o, com destreza, sob a agulha; os olhos encovados, inexpressivos. Era como se a visse pela primeira vez. Quedou-se, sem se mover. Apenas o triste chiar do pedal se fazia ouvir na casa silenciosa. Olhou em redor, tentando captar memórias do passado, retidas, dentro das paredes que a tinham visto crescer. Esforçava-se para não sucumbir à mágoa que lhe cortava a respiração e a deixava enfraquecida. Uma gaiola vazia, a um canto, veio recordá-la dos afinados gorjeios do canário que, em tempos, ali vivera. Lembrou o dia em que o pai o comprara, numa loja do Martim Moniz. Não quisera estragar o entusiasmo dele e fingira contentamento, ocultando a pena que sentira por ver o pássaro aprisionado, no espaço reduzido daquela gaiola, pintada de verde. Estremeceu e soltou um suspiro, o corpo a pesar-lhe sobre os pés doridos. Com movimentos lentos, libertou-se dos sapatos e deixou-se resvalar, contra a parede, até sentir a macieza da alcatifa desbotada. Cruzou as pernas, massajando-as, com o olhar vagante, pela sala. Sobre o estofo coçado de uma cadeira, agonizava uma boneca sem limbos. Esboçou um desmaiado sorriso.</p>
<p>A mãe continuava a costurar, alheia à sua presença. Ou talvez não. Tinha chegado na véspera e as palavras trocadas, entre elas, tinham sido esparsas e banais. Achou-a mais seca, consumida por ressentimentos que haviam multiplicado, durante a sua ausência. Era quase impossível vislumbrar a mulher que ela fora, dormente algures, debaixo daquela fisionomia fechada. Engolira a dor que sentia, perante a indiferença da mãe. Não compreendia porque se mantinha imperturbável, continuando a trabalhar, como se fosse um dia igual a tantos outros. Sentiu um arrepio. Levantou-se e foi ao quarto buscar um casaco de malha que colocou sobre os ombros. Nada tinha mudado. Apenas a poeira acumulada sobre os móveis e o cheiro a mofo. Espreitou pela janela, apartando as cortinas gastas. Um grupo ruidoso de adolescentes jogava à bola; duas vizinhas conversavam, animadamente, à esquina; o som trepidante de um avião, sulcando o céu nublado; os latidos teimosos de um cachorro, na varanda do prédio fronteiriço. Olhou para o relógio. Tinha de fazer os preparativos para o jantar. Percorreu o corredor onde havia desaparecido o odor apetente dos cozinhados da avó e o arrastar dos seus passos cansados. Com os olhos marejados de lágrimas, entrou na cozinha. Estacou, frente à porta envidraçada, incapaz de a transpor. As recordações do tempo de menina corriam, a galope, pela sua mente exausta. Sentiu a cabeça à roda e encostou-se à chaminé. Mal recomposta, começou a temperar os bifes.</p>
<p>O silêncio era angustiante. Desejou ouvir os acordes de um piano ou as badaladas do relógio de parede que deixara de trabalhar, poucos meses depois do suicídio do avô. Lembrou aquele Verão. Contra os desejos da mãe, tinha ficado em casa. Era a primeira vez que não tinha ido passar as férias, com os pais, na Praia de Santa Cruz. Quando voltaram, a relação entre elas começara a deteriorar-se. Depois, havia as visitas regulares e os serões passados em casa das vizinhas, aos quais a mãe se opunha, com frequência. Também era do seu desagrado, a crescente amizade dela com o filho da vizinha do terceiro andar. A sua expressão suavizou-se. Consultou o relógio de pulso, impaciente. Já não faltava muito para voltar ao aconchego dos braços dele. A seu lado, seria mais fácil suportar a longa noite de vigília, na igreja, onde o corpo do pai receberia a derradeira visita de amigos e familiares.</p>
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		<title>Final do primeiro acto</title>
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		<pubDate>Tue, 24 Mar 2009 07:07:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Julieta Ferreira</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<p></p>
<p>Sentada junto ao peitoril da janela, fitava o céu estrelado. A luz prateada da lua cheia banhou a escuridade do quarto, fazendo realçar os contornos das bonecas, sentadas aos pés da cama, olhos de vidro, embaciados, fixos nela. Ouviu, ao longe, um uivar plangente. Do prédio amarelo, com persianas corridas, onde havia um terraço florido, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft" src="http://images-1.redbubble.net/img/art/size:large/view:main/1459733-2-the-magic-of-books.jpg" alt="" width="211" height="201" /></p>
<p>Sentada junto ao peitoril da janela, fitava o céu estrelado. A luz prateada da lua cheia banhou a escuridade do quarto, fazendo realçar os contornos das bonecas, sentadas aos pés da cama, olhos de vidro, embaciados, fixos nela. Ouviu, ao longe, um uivar plangente. Do prédio amarelo, com persianas corridas, onde havia um terraço florido, vinha a voz timbrada do Rei da Rádio, entoando ‘<em>Amanhã se Deus quiser</em>’. O arrastar de uns passos cansados chegava, do andar de cima, sumido, pela espessura do tecto. As cordas de um piano soltavam soluços, na mansidão da noite. Pelo lajedo da calçada, ecoavam as solas gastas do guarda-nocturno, riscando o silêncio com o trinado do seu assobio reconfortante. Ruídos mesclados rompiam da cozinha e perdiam-se no corredor. A cadência lamuriante do pedalar da máquina de costura atravessava a porta cerrada do quarto e fazia-a estremecer.<br />
Há muitos dias que não vinha à janela. Por certo o pássaro teria sentido a sua falta. Já nem se lembrava da última vez que se perdera nos fantasiosos labirintos do fecundo jardim da sua imaginação. Recapitulou, em alvoroço, os acontecimentos e as conversas que ouvira, durante a semana. Tinha a cabeça num rodopio, como o pião multicor, oferecido pelo pai, ao completar nove anos, dois meses antes. Deteve-se, por alguns momentos, a pensar no amigo que entrara, inesperadamente, na vida dela, e a fizera sentir de um modo diferente. Através dele, estava agora no centro da história mais fantástica de todas as histórias que conhecia. Sentiu desejos de subir as escadas e o surpreender. Tinha tanto para lhe contar! Sorriu, enleada, um frémito a percorrer-lhe o corpo, apenas coberto pela camisa de dormir.</p>
<p>Recordou, apreensiva, o que a avó revelara, naquela tarde. O segredo, contido no envelope marcado ‘<em>confidencial</em>’, que a vizinha do terceiro andar abrira, no dia do funeral dos pais, tinha ficado esquecido, durante o jantar e serão, ocupados com a história do General. No complexo enredo que dizia respeito às vidas de vários inquilinos do prédio, esse dado era o único para o qual ela ainda não tinha achado uma resposta. No entanto, havia uma insinuante suspeita a deixá-la desassossegada. Perguntava-se o que havia trazido aquelas pessoas a viverem debaixo do mesmo telhado. Concluiu que só poderia ter sido uma força divina a juntá-las ali.</p>
<p>Puxou os estores, com cuidado, para não fazer barulho, correu as cortinas e sentou-se na cama, agora iluminada pela luz suave do candeeiro da mesa-de-cabeceira. Agarrou num caderno pautado e, pouco a pouco, as folhas em branco iam sendo preenchidas, com uma caligrafia redonda e simétrica. Escreveu, com afinco, até o sono a vencer. Adormeceu de rosto sereno, o caderno escondido, sob a almofada.</p>
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		<title>Compasso Ternário (Parte IV)</title>
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		<pubDate>Sat, 21 Mar 2009 22:09:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Julieta Ferreira</dc:creator>
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<p>Passaram à sala de visitas onde a avó serviu o café. O primo tinha transformado o corredor numa estrada para manobrar os seus carrinhos e exigia a presença dela, como espectadora. Conseguiu dissuadi-lo, com a promessa de lhe oferecer uns cromos da colecção Pinóquio. Liberta dele, sentou-se junto à mãe que prosseguia a costura, interrompida [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft" src="http://www.renoirgallery.com/paintings/renoir-lady-sewing.jpg" alt="" width="204" height="201" /></p>
<p>Passaram à sala de visitas onde a avó serviu o café. O primo tinha transformado o corredor numa estrada para manobrar os seus carrinhos e exigia a presença dela, como espectadora. Conseguiu dissuadi-lo, com a promessa de lhe oferecer uns cromos da colecção <em>Pinóquio</em>. Liberta dele, sentou-se junto à mãe que prosseguia a costura, interrompida pelo jantar. O tio repimpado, num dos sofás, recordava-se agora de ter ouvido falar desse General e do final súbito da sua carreira militar, depois do assassinato do Primeiro-ministro. Havia quem dissesse que tinha voltado ao Brasil e deixado as filhas em Lisboa. O certo é que ninguém ficara a saber o paradeiro dele. A tia, que ouvira os pais contarem muitas histórias sobre aquela família, estava melhor informada. Era óbvio que sentia orgulho em esclarecer o marido e impressionar a sogra e cunhada.</p>
<p>No princípio de Setembro, a filha do General fora vista a dançar com o inglês, durante a tradicional <em>Festa do Vinho</em>. Essa fora a segunda e última vez a serem vistos juntos, em público. Em meados de Outubro, depois das vindimas, chegou um transatlântico à Ilha. Nele viajava uma família aristocrata londrina. A partir desse dia, os rumores acerca do comerciante foram confirmados. Perante tal choque, a jovem adoeceu. Só então o General se dera conta da desobediência da filha. Inconsolável ainda pela perda da mulher e em choque com as notícias que recebera de Lisboa, sobre a morte do amigo, decidiu mandar a filha para o Convento de Santa Clara, no Funchal. Foi tudo tratado com grande sigilo. Uma noite, pela calada, as religiosas clarissas abriram as portas para acolher uma menina de pouco mais de dezoito anos, muito débil e pesarosa. Os ilhéus julgaram tratar-se de vocação ou educação. Mas a serviçal, que trabalhava em casa dos pais da tia, sabia mais do que os outros, por ser amiga da governanta do General. A menina estava grávida e fora essa a razão que levara o pai a renegá-la. Todo o tempo que esteve sob o cuidado das freiras, nem ele nem as irmãs a visitaram. Escrevia regularmente à irmã mais velha, a única que a amparara, antes da sua entrada no convento. Dizia-lhe que tinha conseguido encontrar alguma paz, no seio protector e afável das Irmãs que lhe haviam ensinado a bordar. Passava os dias entre a música, a oração e os bordados. </p>
<p>Quando a criança nasceu, foi entregue à governanta para que ela tratasse da adopção. O General deu-lhe uma elevada recompensa financeira e organizou a viagem de regresso à capital. Nunca mais se soube o que aconteceu a essa mulher. Houve quem afirmasse que ela tinha ido para Porto Santo, cuidar de um parente idoso. Nem a serviçal dos pais da tia ficara a saber o que acontecera à amiga ou, tão pouco, à criança ilegítima. Apenas sabia que era um menino. Uns meses mais tarde, correra a notícia de que o General tinha sido preso e, não resistindo à difamação, morrera de apoplexia. </p>
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