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Des-Encontros de Des-Amantes

Abriu os olhos e pestanejou com a intensidade da luz que entrava pela janela entreaberta. Uma lufada de ar fresco fê-la estremecer e puxar o lençol para cobrir o corpo desnudado.
A pouco e pouco, foi-se acostumando à realidade do que a rodeava. Passava de um estado letárgico de sonolência a um despertar forçado.
Lá se tinha esquecido, outra vez, de desligar o despertador, no telemóvel!
Sempre tivera um sono muito leve. Ele, pelo contrário, continuava a dormir a sono solto, de barriga para cima, boca aberta, expelindo ruídos grotescos.
Que diacho! Agora que olhava bem para ele, reduzido a um corpo inerte, flácido e gordo, pareceu-lhe até irreconhecível.
Porque seria que os homens dormiam tanto e adormeciam em segundos, mal acabavam de fazer amor? Fazer amor ou fornicar! Mas isso era outra história!
Espraiou o olhar pelo quarto, notando os pormenores, que lhe haviam escapado, na noite anterior. As cortinas às flores, um pouco desbotadas e de muito mau gosto; os móveis de estilo moderno a destoarem, naquelas águas-furtadas, do Bairro Alto; os copos vazios a deixarem no ar um cheiro a álcool fermentado, pestilento, que lhe deu a volta ao estômago e uma vontade de vomitar. Era então por isso que a cabeça lhe pesava tanto na almofada e sentia até receio de se afoitar a fazer qualquer movimento, que a deixasse tonta e desfalecida.

Quer quisesse quer não, teria de se mover. Não podia reprimir por muito mais tempo o desejo, cada vez mais premente, de ir à casa de banho.
Sentou-se primeiro, ainda a medo de sucumbir à vertigem. Sentiu um arrepio que lhe deixou os mamilos duros, erectos. Passou a língua pelos lábios secos, engoliu um travo amargo na boca. Esticou as pernas bronzeadas, bem torneadas; girou os pés, no ar. Encheu-se de coragem e levantou-se. Pareceu-lhe que o pescoço não iria ser capaz de suportar a cabeça que pesava toneladas. Caminhou, devagar, a humidade do sémen a escorrer-lhe pelo interior das coxas e ela a contrair o sexo dorido, não fosse o líquido viscoso e lácteo cair na carpete.
E afinal, porque havia de se importar com isso? Caramba! Tinha mais com que se preocupar.
Para já, era mais importante chegar depressa à sanita, sem tropeçar e cair redondamente no chão, ultrapassando o amontoado de roupa e sapatos, denunciando a impetuosidade da luta carnal, da véspera.
Já mais equilibrada, olhou-se ao espelho, fez um trejeito de descontentamento para a imagem reflectida e alisou o cabelo revolto.
Recordou, vagamente, as contorções e os gemidos de um prazer falso; o suor a encharcar-lhe o ventre e os seios; o peso dele a esmagá-la, nas arremetidas de macho com cio; o membro rijo a dilacerar-lhe as entranhas; a língua dele a penetrá-la e a deixá-la sem fôlego; o vazio, depois do orgasmo.
Sentiu a amargura de não saber o que fazia ali; sentiu a desilusão de não pertencer àquele lugar; sentiu a revolta de se ter perdido; sentiu a tristeza de não se reconhecer.
Ouviu o ressonar dele, com uma nitidez que a sufocou.
Voltar para a cama? Nem pensar!

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