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Desabrochar…

No curto espaço de tempo que decorrera desde que se conheceram, aquela era a segunda vez que ele lhe oferecia flores. Primeiro, tinha sido num dia em que o brilho do sol de inverno cobria a cidade. Ela falara muito, como era seu hábito, quando se emocionava, se sentia feliz ou sem jeito. Nesse princípio de tarde, fitando, sem cerimónia, a profundez dos olhos dele, deixou-se embalar pela aliviosa intuição e provou, num inebriado estupor, o retorno da sua feminilidade. Contudo, esse dia que passaram a chamar, como cúmplices de uma história por desvendar, o dia do eclipse, tinha sido um teste para ambos. As flores que ele lhe ofertara, depois da revelação incómoda, de uma realidade cortante, pesaram-lhe nas mãos trémulas, ao sentir-se como folha outonal, desenraizada, solta, na voragem de um inesperado temporal. As flores ficariam a lembrar-lhe a esperança e a desilusão. Conservaram-se, airosas e luxuriantes, tal como se conservou nela o animado desejo de não renunciar a um sonho jamais perdido.

Agora a singela rosa branca fazia-a levitar, no silêncio partilhado de duas almas que se haviam reencontrado. Sim, porque ela soubera, desde o inicial encontro, que as almas de ambos guardavam a memória de um Tempo Outro e traziam em si a urgência de se buscarem. As palavras eram esparsas, não por falta de emotividade mas sim pela calma que já habitava nela. Era a serenidade que advinha de um regresso a si mesma; de um sentimento que brotava de uma antiga nascente mas agora fluía, renovado; da chegada a um cais que se reconhece e onde nunca se aportou. Era o reinventar do que parecera esquecido. Era o despertar de um sono não desejado.

Ele era o príncipe que vivera no fantasioso jardim da sua imaginação de menina. Ele era o homem que ela romantizara na solidão cerrada da sua realidade de mulher. Tanto lhe queria contar e beber-lhe as palavras! Tanto lhe queria dar e abrir o regaço para o receber!

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