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Dois dias junto ao Sado – Parte I

Aqueles, que me conhecem ou já me leram, sabem bem que não acredito em acasos ou acidentes de percurso. Para mim, tudo o que acontece na vida tem uma razão de ser. Uma circunstância, por mais acidental que pareça, pode ser o princípio de um desenrolar de acontecimentos que poderão afectar-nos de formas impensáveis e, por vezes, mudar o rumo das nossas vidas. Por isso, nunca desprezo as oportunidades que o Universo me oferece e aceito os seus desafios, respondendo a eles com garra, entusiasmo e aquele deslumbramento que sempre sinto, em presença de um desígnio ainda por desvendar.
Foi assim que, na passada terça-feira, a meio da tarde, me sentei no comboio, deixando para trás a minha cidade branca, iluminada por um sol débil e envergonhado. Demorei o meu olhar comovido nas colinas, que se iam perdendo na distância e, depois de já me encontrar na outra margem – a outra banda, como vulgarmente passou a ser conhecida – constatei que o sol já não se fazia rogado e cobria os campos com um manto de luz, acentuando o fulgor das suas pastagens verdejantes. Naquela hora de remanso o gado, bem nutrido e de pele lustrosa, descansava o corpo pesado, sob vigorosos sobreiros.

Arranjei uma posição mais confortável no assento, cruzando as pernas, na diminuta área, à minha frente, os olhos cativos pela paisagem e a mente repleta de imagens e pensamentos. Recordei o motivo que me levava a visitar as terras da margem sul do Tejo, e estremeci de antecipação. Ao fim de um ano, de contactos virtuais, ia finalmente conhecer o homem por detrás das palavras de sílabas salgadas e de silêncios por habitar, que me havia fascinado pela simplicidade, quase bucólica, dos seus poemas. Na melodia dos seus versos pintados de luz, em tonalidades de azul, eu colhi um brilho que iluminou muitos dos meus dias de solidão. Mas não era somente esse encontro que me tinha levado a responder a mais um incitamento da Vida, num desses inexplicáveis trajectos que me têm conduzido a incógnitos destinos. No dia seguinte, iria ter a oportunidade de fazer parte de um espaço que me move e do qual tenho saudades. Numa sala de aula da Universidade Sénior, na cidade que albergou o poeta e pedagogo, cujo segredo era amar, eu encontrar-me-ia no meio de uma classe de amantes e cultivadores da poesia. Mais uma vez, com uma renovada paixão, eu teria o ensejo de fazer da aula um espaço nosso em que todos participassem e onde mutuamente nos enriquecêssemos, como tinha sido o desejo do meu ‘mentor’, expresso no seu Diário que li tantas vezes e nunca esqueci.

Depois de uma sinuosa viagem de táxi, ouvindo o motorista advertir-me para os perigos de andar a pé, sozinha, por certas áreas de Setúbal, cheguei à Estalagem do Sado, com um sol glorioso a raiar sobre a serra. Fiquei parada, uns momentos, de respiração suspensa, absorvendo a magnitude do panorama que se me oferecia, daquele ponto elevado.

Continua…

3 comentarios a Dois dias junto ao Sado – Parte I

  • M. Eduarda Gonçalves

    Cara Julieta:
    Foi muito agradável ler este belo texto sobre os “Dois dias junto ao Sado”, e foi particularmente grato ter partilhado consigo esses dois dias… Foi ainda um privilégio o tempo e as reflexões que nos ofereceu na Uniseti,
    nesta nossa cidade do rio azul, a que certamente voltará… para seu e nosso prazer.
    Até lá, falar-nos-emos em torno da Poesia que nos une e da amizade que nos estreita.
    Um forte abraço da
    Eduarda

  • Manuel Dias

    Estou feliz por saber que já se encontra entre nós…e que começou da melhor forma…A Margem Sul é linda…Setubal é uma cidade maravilhoa, o Sado um rio calmo e sereno…Faço votos para que encontre calma e serenidade para dar largas à sua imaginação e nos produzir trabalhos que dá prazer ler…
    Quanto ao texto que acaba de produzir gostei…e para mim que conheço muito bem a margem Sul e as suas gentes tem um sentido bem expressivo…
    Bem haja e que tudo corra bem…

  • Ana Ranita

    Minha querida amiga
    Obrigada mais uma vez pelo texto maravilhoso descritivo de todos os bocadinhos desta nossa terra tão maravilhosa. A minha falta de tempo não me permite fazer escapadelas e através da tua escrita revisito com prazer muitos locais físicos e também metafísicos que povoam o nosso imaginário de recordações e anseios. Mais uma vez agradeço a Deus a possibilidade que me tem dado de te conhecer e ter como amiga.
    Recebe o meu muito carinho. Mil beijos. Ana

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