
Tinha duas horas para preencher, antes do encontro com o poeta que diz … um coração precisa de sol e gosta da palavra habitar porque com ela habita a casa onde cada palavra é uma janela aberta. Esse homem que me falou de haver um tempo para tudo e se detém a cogitar sobre o que nos move. Agora era o tempo de eu esquecer os meus cuidados e apreciar a idílica panorâmica que podia desfrutar da varanda solarenga do meu quarto. Sabia o que me movia nesta visita à cidade do rio azul e queria viver cada momento como se não houvesse amanhã. O meu coração sorria, bafejado pelo brilho caloroso do sol.
‘tudo tem a sua alma no rumor da tarde
tudo tem a sua descoberta no estremecimento do olhar. ‘
No rumor brando e embalador daquele fim de tarde, eu ouvia o vento sibilar, envolvente, numa dança que começava na serra, recortada com imponência, no céu salpicado de nuvens. No estremecimento do meu olhar, descobri um novo mundo e abracei a alma daquele lugar. O rio espraiava-se, a perder de vista, ao fundo do casario que descia, airoso, pela vertente da colina. Respirei fundo.
Pela luz crepuscular, encontrei-me com o homem que me havia convidado, através de e-mails a transbordar de versos tingidos de cintilantes palavras. Essas que ele escolhe por gosto e colecciona com o coração. Fernando Paulino olha e fala do mesmo modo que escreve. A sua simplicidade é contagiante. Foi como se já o conhecesse de longa data.
O jantar, num restaurante, a dois passos das águas, de uma transparência anilar, onde habitam os golfinhos, foi pretexto para umas horas de amena confraternização entre pessoas que partilham o amor pelas letras e artes. A pintura e a poesia foram motivos de conversa. Mas não só. A gastronomia ocupou grande parte do serão, ou não fossemos portugueses que se prezam pela variadíssima e riquíssima culinária do nosso cantinho luso. Saboreei, com gosto, um espadarte grelhado que uma deliciosa sangria de champanhe regava, a preceito. Lá fora, as luzes cintilantes e mutáveis do Casino de Tróia, ao longe, vieram acrescentar mais um tópico à nossa animada cavaqueira. E eu, enquanto ouvia as minhas interlocutoras esclarecerem-me sobre os mais recentes desenvolvimentos naquela península que passou a designar-se de resort – como se a nossa língua carecesse de vocábulos – lembrei as românticas escapadelas, na época de setenta. Nessa altura, era perfeitamente acessível às bolsas menos recheadas e servia de refúgio para os enamorados e amantes que procuravam um local paradisíaco, a um preço económico. Senti a nostalgia de um tempo passado e descuidado que deixara uma memória vaga mas reconfortante.
Do outro lado da mesa, uma poetisa de uma versatilidade espantosa, tocou-me pela maneira desassombrada como falava e pelo amor que nutre pela cidade que a viu nascer e pela Arrábida. Viria a conhecê-la ainda melhor, no dia seguinte, e também através da leitura de Verdades do meu pensar, uma colectânea de crónicas que a definem como mulher arrojada no pensar, no sentir e no escrever. Posso mesmo afirmar, convicta, que Alexandrina Pereira é cá das minhas! O seu encantamento e devoção pela Serra estão presentes, de uma forma magnífica, na crónica ‘Arrábida, meu amor! ‘ de onde captei a frase – A Serra é o meu encanto, o meu pulmão, a minha alegria, o meu êxtase. – Palavras que poderiam facilmente aplicarem-se à minha maneira de sentir por Lisboa.
Continua…


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