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Dois dias junto ao Sado – Parte III


Quarta-feira amanheceu com um sol indeciso, oculto de quando em quando, como se estivesse a brincar às escondidas. Contudo, foi a sua luz diáfana, espelhada nas águas serenas do Sado, a primeira visão que tive, ao abrir os cortinados. Os meus olhos pestanejaram, ainda não habituados à claridade que entrou, de rompante, pela janela do quarto. Durante o pequeno-almoço, tive por companhia a Serra, saudando o novo dia, na sua altivez luxuriante.

A turma que me esperava, numa sala pequenina da UNISETI, fez-me lembrar outras turmas, dos finais da década de setenta, quando eu dava aulas a adultos, no Externato Acrópole, perto do Largo de Camões. Todos pareciam felizes, com um ar de saudável expectativa. Mas entre eles, era eu a mais feliz. Falei-lhes, com arrebatamento incontido, sobre o prazer que sentia por estar ali. E enumerei razões. A primeira era por estar a pisar o solo pátrio; a segunda, por estar naquela cidade, berço de afamados poetas. E, foi aí que referi o Gama – não aquele que alargou o império na época quinhentista, mas o outro que alargou as mentes dos que o leram e deixou a nossa literatura mais rica –. Os sorrisos que afloravam nos rostos dos meus ouvintes também se alargaram. Deveriam ter pensado que afinal a lisboeta, há tantos anos emigrada, comungava com os setubalenses, a admiração pelo escritor da Arrábida. Acho que isso nos aproximou, mesmo antes de eu nomear a terceira razão daquele prazer que se assemelhava ao sentir do filho ausente quando retorna a casa. Essa última razão tinha a ver com a aula em si e o que nos unia, nessa oficina onde as palavras eram trabalhadas, num labor de pensamentos e numa expressão de corações.

A hora passou num ápice, entre leituras de poemas e referências ao meu percurso pessoal e literário. No exaltamento que sempre acompanha conversas deste teor, consegui esquecer uma certa náusea gástrica que teimava em me molestar, quiçá o resíduo da ingestão de um queijo de cabra, na noite anterior. Mas, se consegui disfarçar o incómodo digestivo, durante a aula, já não fui bem sucedida, durante o pródigo almoço de rodízio de peixe, servido num restaurante, junto ao cais. Eu, que sou uma fervorosa apreciadora do pescado da nossa costa atlântica, vi-me forçada a uma abstinência que, porventura, teria sido mal interpretada pelos meus companheiros de mesa. Foi assim que resisti, muito a custo, às apetitosas sardinhas, continuamente a passarem à minha frente, seguidas pelos carapaus, salmonetes, lulas, chocos e outros tantos, num manjar que dir-se-ia não ter fim.

Seguiu-se uma aula aberta, num pátio interior de um café onde a vegetação, aliada ao chilrear jocoso dos pássaros, dava uma nota bucólica ao ambiente. Bebericando chá e recitando poesia, este foi um encontro que elevou os nossos espíritos e acalentou as nossas almas. Senti-me privilegiada por fazer parte deste grupo cultural de um dinamismo surpreendente. Para terminar este dia, nada poderia ter superado o passeio pela orla costeira, até à praia da Figueirinha, usufruindo a proximidade das águas calmas do oceano, com o sol a descer no horizonte.

1 comentario a Dois dias junto ao Sado – Parte III

  • São Martins

    Ao ler esta sequência de textos descritivos, motivados pelo evento em que participou, deu-me uma enorme vontade de revisitar essa belíssima região – Setúbal, Sado, Arrábida…
    Repetindo-me, mas não me cansando de o fazer, continuo fã da Julieta!
    Um beijinho

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