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Em Azeitão com Sebastião da Gama

Foi na passada quinta-feira que segui, de novo, rumo a Setúbal. Desta vez de autocarro, numa viagem rapidíssima, sem paragens. O sol aquecia-nos, impiedoso, naquele dia muito quente, de um Verão prematuro. Encontrei-me com a poetisa Alexandrina Pereira que me levou a almoçar no Ribeirinha do Sado, um restaurante muito simpático, na Avenida Luísa Todi. A minha disposição não podia ser melhor. Tanto física como emocional. Saboreei, regalada, as minhas primeiras sardinhas, acompanhadas de uma salada de pimentos e migas. Também não faltou o vinho verde, bem fresquinho. Ora eu nunca havia comido migas e desconhecia completamente esta iguaria lusitana. E estas, que nos foram servidas pelo dono do restaurante, prazenteiro e tagarela, eram bem diferentes daquilo que antecipara, depois da explicação da minha companheira de mesa. O pão, misturado com muito alho e coentros, era enrolado de maneira a fazer lembrar pastéis de bacalhau. Sofreei, a custo, a tentação de ingerir mais do que seria devido, de tal modo eram apetitosas.

Depois do almoço e fazendo face à inesperada canícula, reunimo-nos com Fernando Paulino e um grupo de alunos da Oficina da Poesia para a desejada ocorrência daquela minha segunda visita à cidade sadina. De carro, até Azeitão, fui antevendo, numa expectativa nervosa, o que seria o meu encontro com a viúva de Sebastião da Gama. Duas semanas atrás, eu nem sabia que essa senhora era viva e se mantivera fiel a uma relação que tinha sido dolorosamente encurtada pela morte do poeta, aos 27 anos de idade. O amor sobrevivera e ainda hoje, passadas quase três décadas, eu o iria testemunhar, no sereno olhar e nas veementes, afectuosas palavras de D. Joana Luísa. Mas não só. Também tinha sido conseguida, à última hora, a presença de um dos alunos de Sebastião da Gama. O telefonema tinha sido feito à minha frente e eu mantivera a boca meio aberta, num trejeito de assombro e incredulidade.

Durante o almoço, a Alexandrina perguntara-me se eu tinha formulado alguma ideia sobre a pessoa que tinha partilhado a vida do poeta, de uma forma tão íntima. Disse-lhe que não. Queria ir de mente virgem e receptiva, pronta para o momento que seria único e jamais imaginado. Eu estava grata ao Universo e ao percurso de Vida que me tinha levado ali. Eu estava enlevada pela oportunidade de ver, tocar e falar com a mulher que conhecera, melhor do que ninguém, o homem que exercera tal fascínio, em mim.

Continua…

2 comentarios a Em Azeitão com Sebastião da Gama

  • São Martins

    Dizer que conheço bem Sebastião da Gama, não corresponde à verdade… apenas um poema ou outro. Ah, mas graças à Julieta, já me dediquei a lê-lo! Vir a este espaço é sempre enriquecedor. Continuação de boa estadia em Portugal, Um beijinho

    O Sonho

    Pelo Sonho é que vamos,
    Comovidos e mudos.
    Chegamos? Não chegamos?
    Haja ou não haja frutos,
    Pelo sonho é que vamos.

    Basta a fé no que temos,
    Basta a esperança naquilo
    Que talvez não teremos.
    Basta que a alma demos,
    Com a mesma alegria,
    Ao que desconhecemos
    E ao que é do dia-a-dia.

    Chegamos? Não chegamos?

    - Partimos. Vamos. Somos.

    in Pelo sonho é que vamos

  • arlete esteves gomes

    Cara Senhora
    Como eu a invejo minha senhora….. por poder se dar ao luxo de almoçar em Azeitao na companhia de nobres seres como a esposa do tao nobre senhor D Sebastiao da Gama…..longe do meu pais por sonhos que de fruto deram apenas dinheiro e só dinheiro e nada mais….. tenho inveja de quem pode somente almoçar onde quer, com quem quer,como quer …..isto é bonito demais,isto é um luxo demasiado grande para gente pequena como eu….não quero esta imensidão,aflige-me esta grandeza,inibe-me esta multidão….a pequenez do meu pais protege-me…..foi pelo sonho que vim para Madrid e será pelo sonho que irei para PORTUGAL…..o escritor morreu mas a sua obra ficou…. “morra um homem mas deixe fama”e eu quando morrer? nem nome, nem fama,nem eu mesma pude viver….Nao quero este viver…..passe bem, continue a viver assim, que seu viver tem graça e dá vontade de viver…..arlete

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