Visitantes Únicos

Fernando Ferreira no Blogue do SOL (I)

Quando decidi juntar-me a esta comunidade de bloguers longe andava eu de imaginar que iria encontrar pessoas que, apesar de se dedicarem a deixar aqui pedaços da sua vida, a escrever histórias e ideias em forma poética ou em escrita coloquial, a divulgar obras de arte, a fazer crítica política, a fazer humor “non sense”, a escrever crónicas de viagens reais e imaginárias, também escreviam livros. Foi, pois, com um redobrado prazer que fui descobrindo aqui excelentes escritores da língua pátria, pessoas simples que como eu, sentem esta imperiosa necessidade de escrever, uns para serem lidos, outros para dialogar com os seus leitores, como o mundo está a mudar…
Eu tinha começado a minha aventura bloguística em Fevereiro passado, quando recebi um comentário elogioso e simpático de uma tal Julieta Ferreira, que tinha aqui um blogue com o mesmo nome (que falta de imaginação, Julieta!). Como muitos do que me visitam aqui no meu cantinho sabem, eu sou professor e apesar de, no momento, não estar a leccionar, sempre gostei muito do trabalho de ensinar…
Como também sou formado em Arquitectura e fui arquitecto durante algum tempo, volto sempre a essa paixão, deixada por motivos de saúde, mas adoro e devoro tudo o que seja um bom livro e boa literatura, em bom português. E depois daquele comentário tão curioso, quanto interessante, decido visitar o cantinho da Julieta. Aparentemente, nada de especial, um blogue onde se escrevia boa poesia e boa prosa, mas onde rapidamente percebo que tem muita gente interessada nos seus textos, acabo por conhecer alguns professores que lá deixam os seus comentários, troco algumas mensagens privadas com alguns deles, andava a pensar que era um desperdício tanta qualidade dispersa por tantos blogues que poucos ou nenhuns lêem, proponho a alguns deles um blogue colectivo para escrevermos sobre os nossos temas, há tanta coisa que nos aflige hoje em dia… Um deles, mais propriamente uma «ela», a Olinda Gil, chama-me a atenção para a necessidade de convidarmos a Julieta, afinal ela também fora professora há muitos anos, é emigrante na Austrália, havia de gostar de entrar num projecto destes. Já não me lembro se fui eu ou a Olinda que a convidou, recebo uma entusiástica resposta a dizer que sim, que gosta muito de escrever sobre temas da educação, fora professora de Português cá e também fora professora na Austrália, andara a promover a língua pátria naquelas terras tão longínquas… Eu, claro, aceito-a na nossa pequena comunidade de professores, até dava um certo charme termos aqui a participação de alguém que, estando tão longe da pátria, mostrava este tão grande apego à sua terra e às suas gentes. Passados uns dias, alguém me diz que a Julieta tinha editado um livro e que tinha vindo a Portugal no ano passado para o lançar, já estava também disponível na net para download, ela deixava, às vezes, trechos do livro no seu blogue, fui ver, gostei do que li, decidi comprar o meu primeiro livro na net, a coisa não resultou bem à primeira, depois lá veio o livro, mas veio sem capa (ficou a dever-me essa, Julieta!).
Mas está bem, pensei eu, para que preciso eu da capa do livro, não vou imprimir o livro, vou só lê-lo no computador e se não gostar é só apagar o ficheiro, livros não me faltam cá em casa, até será uma boa forma de descartar livros…
E comecei a ler as primeiras páginas, lá vinha uma breve nota introdutória assinada pela Rita Ferro, muito simpática e interessante por sinal e que terminava assim: “Um romance de amor, privação e saudade, escrito com a sensibilidade de uma mulher madura e emancipada, que triunfou sobre toda a desventura, animada por uma única esperança: voltar.” Gostei da ideia, claro, de se escrever um livro cujo móbil principal era o de voltar, voltar à terra que a viu nascer. E depois fixei os meus olhos nos Agradecimentos, aquela inicial página onde os autores agradecem a quem teve a paciência para os aturar meses a fio e lá estava no fim, um pequeno parágrafo que me fez desejar ler o livro todo e que rezava assim: “Ao povo português e à cidade de Lisboa por me darem tantos motivos para continuar a acreditar e a sonhar.”.
Foi a decisão final para começar a ler um livro que agora acabei de ler e sobre o qual vou deixar aqui, nos próximos posts algumas das minhas impressões, fiquei verdadeiramente emocionado e enternecido com a forma da escrita, e sobretudo com o conteúdo da sua escrita, deste maravilhoso livro escrito na primeira pessoa
Aviso já, não sou crítico literário nem vou “criticar” o livro da Julieta Ferreira sobre qualquer outro ponto de vista que não seja o das emoções que este me despertou
Vamos lá por partes, o romance autobiográfico da Julieta é efectivamente aquilo que esta refere no seu site pessoal (www.julieta-ferreira.com). “Regresso a Lisboa é uma narração muito sincera e muito sentida. Deu-me muito prazer escrever este romance: serviu de catarse e também teve – se assim poderei dizer – uma função terapêutica.” Só por isso já teria valido a pena escrever esse livro e dá-lo a conhecer aos seus leitores.
Mas não se ficou por aqui e continuo a citá-la: “À medida que ia escrevendo, ia sendo confrontada com verdades acerca de mim própria e com sentimentos muito intensos e emoções que foram postos a nu pela escrita. Deu-me um prazer muito particular escrever sobre Lisboa e, só mais tarde, vi que afinal o meu livro poderia transmitir ao leitor uma mensagem de optimismo e de esperança num momento em que há tanta desmotivação e falta de auto-estima nas pessoas e no país.” Ao reler o último período da frase, dei-me conta de quanto a Julieta tem razão, só mesmo este afastamento/distanciamento geográfico (que não afectivo) e temporal lhe terá permitido essa leitura do país tão distante.Afinal, as razões da sua saída do país, em 1983 – uma decisão tomada sob o fogo de uma paixão desencantada, alguns dias após a sua chegada – e a sua chegada à Austrália, um país de emigrantes, não tinha que ver com questões de ordem económica ou de desencanto da sua amada cidade. Ela continuou a amar Portugal, aqui voltou já diversas vezes e tem o desejo confesso de voltar definitivamente, talvez ficar aqui a escrever muitos outros livros. Afinal, Saramago começou a escrever por esta idade, a chamada “idade madura”.
Tem uma filha que adora e que vive agora no país dos cangurus (o seu “único amor que permanece inalterável”), aqui deixou, e encontra regularmente, muitos amigos, existe nela um traço bem característico da alma lusa, a saudade da partida, uma forma de mitigar a longa ausência da sua pátria amada. E trinta e cinco anos depois, o regresso a Lisboa e o amor novamente, na pessoa de um antigo namorado dos primeiros tempos de juventude.
Raramente fala da pátria de adopção (forçada), a Austrália, a não ser para dizer que afinal esta não é muito melhor que a sua terra de nascimento e onde cresceu como mulher, nalguns aspectos até bem pior, um país jovem, basicamente urbano, sem património e sem uma cultura enraizada e ancestral a servir de “cimento” ao multiculturalismo que a habita, um dos seus maiores bens, além do extraordinário património geográfico, paisagístico e natural.
Ela fala dessa ausência com uma fé inabalável no seu país e no seu regresso, cito novamente: “Espero que o leitor fique a sentir mais amor e fé no nosso país e que a minha narração possa trazer um pouco da realidade do que é lá fora – nem melhor nem pior do que em Portugal – apenas diferente. Essa diferença que a mim não encanta nem seduz: continuo a preferir o que nós somos, o que nós temos, aquilo que representamos, mesmo que seja pior daquilo que há lá fora, aos olhos de muitos.” Incorrigível romântica? Sim, ela própria o afirma e escreve, o seu livro é um permanente balanço entre desejos e paixões não correspondidas e a sua firme determinação do direito ao amor… e de voltar, de regressar à cidade que a viu nascer, Lisboa. O amor está, aliás, sempre presente no seu livro, seja pelos homens que a acompanharam nesta sua aventura pessoal, seja pela sua Lisboa, à qual regressa sempre. Hoje, mais serena e madura, assinala que “há tantas formas de amor… Um amor místico e devoto, um amor patriótico e saudosista, um amor abnegado e altruísta, um amor egoísta e possessivo, um amor ciumento e obsessivo, um amor platónico e puro, um amor sexual e apaixonado. E há ainda o amor que é ternura, carinho, amizade e companheirismo. É aquele que hoje sinto.”
Regresso a Lisboa é, assim, um livro com uma temática muito pessoal (quase um diário) onde se fala de amores, paixões, encontros e desencontros, numa escrita muito feminina – mas não feminista -, e intimista – mas não envergonhada.

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