Afinal até que idade se pode amar? Ou será que se tem uma data limite para se ser feliz?”É partindo destas interrogações que Julieta Ferreira escreveu um raro romance centrado numa temática até aqui pouco tratada na literatura, a do amor (ou amores e paixões) depois dos cinquenta. Aquela madura idade em que depois de se ter passado por uma ou várias experiências amorosas na juventude e/ou na idade adulta, se julga ter atingido a serenidade e estabilidade emocional. Que resulta da idade, da vida aprendida, das experiências acumuladas, da memória selectiva. Eu também pensava assim, pois tive um casamento de mais de vinte anos…Este é decididamente um romance “feminino”, pois elaborado numa “escrita feminina” e centrado na vida afectiva de uma mulher, Marta, “uma mulher depois dos 50 anos, com uma personalidade que a afasta do protótipo de mulher normal, e que continua a questionar-se sobre o amor, o sexo e sobre si própria”, na perspectiva da própria autora.
Mas não é SÓ um romance para as mulheres, os homens que o lerem terão inumeras lições a retirar, numerosas sugestões para reflexão, talvez a sua maior virtude e qualidade. Marta descobre-se através das interrogações de João…
É também, no dizer da sua autora, “um romance sobre o amor e sobre as múltiplas questões que se põem sobre ele e sobre o sexo e a paixão”.
“Sem ponto final” é um romance de ficção escrito em três partes distintas.
Na primeira, a autora desenvolve o perfil psicológico de Marta, uma mulher moderna e desprovida de preconceitos (?) em busca permanente de um amor sincero. Dá-nos igualmente um interessante retrato de algumas das suas amigas Sofia, Filipa, Teresa e Ana, todas elas diferentes no seu modo de estar e ser, no assumir das suas diferentes idiossincrasias, desejos e ambições. Descreve-nos algumas das suas falhadas buscas do amor com Pedro e Eduardo, dois homens de negócios.
A segunda parte é sobre o encontro da amizade e do amor em João, um professor universitário. Há pelo meio, reflexões de natureza filosófica sobre a existência humana.
A terceira descreve a longa conversa de Marta com João, e o seu epílogo … que fica aqui em aberto para manter o interesse do leitor pela leitura do livro.
***
Porque não saberia, nem devo, expor aqui a trama que se vai tecendo ao longo das três partes do livro, deixo aqui algumas passagens do mesmo e que revelam alguns aspectos da personalidade de Marta e do olhar da escritora sobre a vida, depois dos cinquenta. São tópicos e imagens que me tocaram e sensibilizaram, me fizeram reflectir sobre como pensam as mulheres (pelo menos, algumas delas) na idade madura. Afinal, não é tão diferente do imaginário dos homens, de alguns homens. Somos, em certo sentido, todos humanos (homens e mulheres) que buscam o amor, e neste a tão esperada serenidade ou felicidade conjugal.
Homens e mulheres são, assim, partes de um todo que se completam mutuamente, na sua passagem e aventura na Terra, quais deuses e deusas do Universo.
“Marta não era como as outras mulheres. (…) Ela era especial.”
“- O medo é o vosso maior inimigo” (Marta)
“- Se têm medo, nunca estarão receptivas para a Vida. Se têm medo, nunca se deixarão levar pelo sonho e não arriscarão nada” (Marta)
“- Medo tenho eu da morte porque me roubará as experiências da vida. Mas não tenho medo de viver, isso não!” (Marta)
“Queria assim ocultar, de si própria (Marta) e dos outros, a incapacidade de amar para sempre; (…) a sua incapacidade de pôr ponto final a uma busca que nem ela mesma sabia o que era; a sua incapacidade de se deixar ficar no conforto e segurança de um amor calmo, sem arrebatamentos, presivisel e duradouro.”
“Como escolhia uma mulher um homem para ir para a cama?
Excluindo os casos de uma atracção física incontrolável, uma paixão arrebatada ou amor, ou era para esquecer outro homem, ou para se esquecer a si própria e ao mundo, ou ainda para se sentir bem consigo mesma e fazer inchar o o seu ego. Também, em muitos poucos casos, pela satisfação sexual: pura e simples, nem mais nem menos. O gosto pelo sexo e pelo prazer. Nada mais. Aí a mulher aproxima-se do homem: uma fêmea, o seu igual.”
“Porque será que assusta tanto os homens quando é a mulher a controlar a situação e a dominar? Assusta-os a inteligência, a emancipação, a segurança da mulher. Assusta-os tanto quanto os atrai. E torna-os inseguros.”
“A felicidade, para ela (Marta), era antes um estado de espírito e, ao mesmo tempo, uma atitude. Poderia ser contínua ou momentânea, variando em graus e intensidades.”
“Embora acreditasse em energias, numa Força motivadora de tudo o que acontecia (…) pensava que tinha sido o Homem que criara Deus, ao contrário do que as religiões proclamavam.”
“Estava longe de pensar que algum dia os homens viessem a entender as mulheres e vice-versa. A dificuldade e impossibilidade residiam no facto de que nem uns nem outros desejavam realmente conhecer-se e entender-se. Era mesmo nisso que residia grande parte do fascínio entre eles.”
“João não lhe pedia nada (…) Não lhe pedia nada, era uma forma de dizer: pedia-lhe para ela se mostrar tal qual era, sem artifícios nem jogos.”
“O que temia ver quando se despisse das Martas que ia criando?”
“Sabia muito bem que os homens, na sua maioria, não desejam viver sozinhos: apavora-os a solidão, especialmente depois de terem vivido muitos anos com uma mulher, ainda que tenham deixado de a amar, que o desejo e a paixão tenham morrido (…)”
“O amor tinha triunfado de uma forma…”
Depois de concluída a leitura deste romance ficou-me a sensação de que talvez a história não tenha acabado, afinal a vida real não tem, regra geral, aqueles finais cinematográficos dos “happy end” típicos de muitos filmes.
Mentiria se não escrevesse aqui que gostei muito mais de ler este seu segundo livro, uma obra ficcional de muito boa qualidade literária. E sei que um terceiro talvez já esteja a ser escrito, o tema parece aliciante…


JU
Reli aqui os meus textos sobre os teus livros.
E se os tivesse de escrever novamente, deixaria outra vez as mesmas palavras.
Fiquei profundamente tocado com o teu último livro, gostava de ler mais livros teus.
Com amizade
Fernando