
“O Alentejo é na verdade o máximo e o mínimo a que podemos aspirar: o descampado dum sonho infinito e a realidade de um solo exausto.” Miguel Torga
A entrada dela, no Centro de Arte Moderna, nunca passaria despercebida. Muito menos para mim. Reconheci-a, mesmo sem a ter visto antes. Contudo não lhe sabia os segredos: seria uma revelação sem pressas e também sem demoras.
Ela trazia a frescura e leveza do linho acabado de lavar, no estendal, banhado pelos raios luminosos e quentes de um sol de estio. O seu andar ondulante era de menina com saia rodada ao vento e pés desnudos, beijados pela macieza de uma seara de ouro com salpicos do rubro vivo das papoilas. A sua tez morena fez-me lembrar noites tranquilas ao redor da crepitante lareira, ao som de castanhas a assar e de histórias de outros tempos. Nos seus olhos profundos e inquisitivos havia a chama viva de um acolhimento ansiado. Os seus gestos largos e efusivos, a sua voz cantante e apressada contrastavam com a placitude dos sobreiros e a dormência da planície que eu adivinhava estarem embebidos na sua alma.
Deambulando com vagar pelas salas onde a arte nos surpreende e confronta, fomos encurtando a distância entre as ilhas que ambas somos mas não queremos ser. E o diálogo foi colorido, com pinceladas das vidas que encentávamos a partilhar.
Fui descobrindo a mulher e amiga que me fora revelada primeiro pela palavra que é sempre o espelho daquilo que pensamos e sentimos. Fui descobrindo a filósofa que ensina como quem ama porque essa é a única maneira de ensinar. Fui descobrindo a leitora fervorosa de Torga que versejou sobre a térrea planura e um sobreiro a sangrar ao lado do qual pode, talvez, um pobre coração bater e ao mesmo tempo descansar.
Mais tarde, ao visitá-la no lar que ela gere com mestria e muita devoção, o meu coração bateu e descansou.
Hoje há de novo a distância mas essa é só geográfica porque sempre que queremos nos encontramos nas palavras e não só. Como ela diz…
“Penso na diferença de fusos horários, no meu encontrar-te igual ao que és e sem distância. Porque só as palavras têm esse cariz de proximidade que, por vezes, outras partes de nós não conseguem. Só elas nos escondem e delatam, resolvendo distâncias em arabescos de ápice. Pronto, também te encontro nas maçãs assadas. no bacalhau espiritual, no teu olhar directo, no jeitinho inadvertido da mão a pôr lugar na ordem do cabelo, na tua voz baixa e convicta…enfim, Jú…pequenas coisas que se deixam sem querer. Que, sem distância, são nós. Ou por nós.”
E eu digo…
“Obrigada por me teres feito lembrar daquela que eu era/sou e por me teres transmitido força para eu reencontrar em mim a tal “menina com brilhozinho nos olhos” de que fala o Sérgio Godinho e que tu conheceste. Eu também te encontro igual ao que és e à imagem que tinha de ti mesmo antes de te conhecer. Encontro-te na memória do tempo que nos pertenceu e que fomentou uma amizade e cumplicidade. E olha que há mesmo outra maneira de salvar uma pessoa como dizia o Almada. Tu entendes essa outra maneira. Bem hajas!”


Não sei que diga Jú. A não ser que é verdade. O importsnte é teres voltado na escrita. Porque não devemos perder-nos de nós.E tu és com as palavras.
Um ABRAÇO*
Não sabia que ela dirigia um lar.
Bonitas palavras a uma professora que faz da filosofia uma arma de combate pelos direitos humanos.
Abraço
Querida Ju:
Ainda que não reste mais nada, há sempre alguém!
Não é?
Beijos