Visitantes Únicos

Menopausa - Tabu e Mito

Tanto os homens como as mulheres evitam falar dessa fase de vida da fêmea em que ocorre a cessação definitiva da menstruação e que resulta na impossibilidade de continuar a procriar. Ora, se é afinal apenas isso que acontece, numa sucessão inexorável de fases inerentes à fisiologia do corpo humano, como se explica a relutância em abordar tal assunto? De onde vêm todas essas ideias preconceituosas e julgamentos acerca deste período de vida das mulheres? De onde vem o estigma?
Fala-se abertamente sobre a meninice, a puberdade e a velhice mas no tocante à menopausa a história é outra. É mesmo uma história e até um mito que se criou em volta desse “estado”. Além disso, continua a ser tabu para muitos, só pelo facto de estar directamente relacionada com a sexualidade feminina. Como sabemos, ainda há um grande desnível entre o homem e a mulher quando se trata de sexo. Isto é, por muito que já se tenha conseguido alcançar nesse campo, ainda há os que preferem relegar para plano secundário a sexualidade da mulher, considerando-a inferior ao homem e não lhe atribuindo os mesmos predicados e estatutos. Produto de uma educação machista e pseudo-moralizante que se tem vindo a fazer sentir ao longo de muitas décadas, o lado sexual da mulher tem sido percebido, muitas vezes, como mais um elemento ao serviço da satisfação masculina e a sua existência condicionada por muitos preconceitos. Daí, o surgimento de certos mitos e falsas ideias.
O conservadorismo de muitos, aliado aos falsos pudores de outros, mais não faz do que distorcer uma realidade que deveria ser aceite com naturalidade e sem estigmas. Não percamos de vista o que, na maioria dos casos, está por detrás de certas atitudes negativas que acabam por ser castrantes e até difamatórias: complexos, frustrações, inibições e ressentimentos nunca ultrapassados.
Se não estamos bem connosco, se a nossa auto-estima é fraca, se carecemos de autoconfiança e amor-próprio, como poderemos enfrentar de cabeça erguida e superar determinadas ideias, enraizadas há muito nas mentes dos menos informados?
Há anos que a minha mãe me anda a preparar para o momento irreversível e inflexível da funesta menopausa que tanto nos faz sofrer e à qual estamos condenadas. Para a minha mãe e outras mulheres como ela, dir-se-ia tratar-se de uma maldição a que não podemos fugir e, durante a qual, vamos perdendo a nossa feminilidade. Isso é porque à menopausa estão associados juízos que têm a ver com perda de vitalidade, perda de libido, perda de atracção e perda de juventude. A ela estão também ligadas transformações a vários níveis, mudanças bruscas de humor, reacções por vezes irracionais, excessiva irritabilidade ou sensibilidade, estados depressivos, insónia… e a lista poderia continuar com outros sintomas como se estivéssemos a falar de uma doença incurável.
Sendo assim, qual é a mulher que deseja dar a conhecer aos outros estar a passar por tal calamidade, vendo-se condenada a esta inevitável e longa lista de sintomas que a tornarão menos atraente e menos desejável?
E as mulheres perguntam-se, descrentes: qual é o homem que terá a paciência e compreensão para as aceitar nessa fase de vida?
A meu ver, alguns dos divórcios que ocorrem, depois de muitos anos de casamento, e durante esta tal fase, reflectem o mito há muito desenvolvido e o pânico que, de repente, assalta ambos os sexos, por razões diversas.
Os homens, crentes de que as esposas não voltarão a ser o que eram, lançam-se à conquista de mulheres muito mais novas, na perseguição de uma juventude, sinónimo de vitalidade sexual.
E as mulheres? Essas, ou se deixam sucumbir ao mito e se dão por vencidas pela malfadada vida, ou então ganham maior confiança em si próprias e embarcam numa nova fase, mais libertadora. As últimas dar-se-ão conta de que poderá ser o começo de uma vida sexual muito mais compensadora em que terão a possibilidade de brilhar de uma forma mais bela que lhes advém das conscientes escolhas que fizeram. Ao contrário de se sentirem diminuídas, irão tomar o direito, para elas mesmas, de uma sexualidade assumida, sem embargo ou restrições.
A minha mãe não vai acreditar na minha menopausa sem sofrimento e, por isso, não lhe vou dizer nada. Se lhe dissesse, seria bem possível que ela me alertasse para o facto de que, mais dia, menos dia, mais mês, menos mês, eu viria a ser mais uma das vítimas deste flagelo implacável. Sim, até porque ninguém foge à regra!

Comente

 

 

 

Pode usar estas tags HTML

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>