É nos nossos relacionamentos mais íntimos que certos aspectos da nossa personalidade e mentalidade se revelam não só para os outros como também para nós próprios. Como seres humanos que somos, cheios de somplexidade e paradoxos, estamos continuamente a aprender facetas que desconhecíamos. Só que, por vezes, opomos resistência a essa aprendizagem ou ignoramos as descobertas que vamos fazendo, de tal modo nos perturbam e abalam a imagem que havíamos construído. A realidade é aquela que queremos ver e aceitar porque nos convém e nos dá estabilidade.
Por outro lado se, num rasgo de mascarada e urdida coragem, oferecemos guarida às nossas fraquezas e imperfeições, logo nos descartamos de responsabilidades, lançando as culpas ao meio ambiente, a circunstâncias fora do nosso controlo, a progenitores ou a um passado conturbado e desditoso.
É assim que alguns criminosos são exonerados e uma grande percentagem da humanidade se refugia sem nunca encarar a sua verdadeira identidade, sem admitir culpas ou responsabilizar-se por erros. E, com a evolução de estudos psiquiátricos, temos hoje uma lista interminável de terminologia a catalogar variadíssimos estados patológicos que, muitas das vezes, servem para ilibar aqueles que praticam actos condenáveis.
Antigamente falava-se de nervos para justificar certos comportamentos e queixas apresentadas por pacientes. Vivia-se numa época em que se aceitava uma explicação simplista e inconclusiva para muitos dos achaques com que éramos confrontados. O diagnóstico sofrer dos nervos ou ter nervos fracos era usado, em várias situações, para explicar os motivos que levavam as pessoas a agir de certo modo. É evidente que também quando se trata de doença inexplicável (ou assim a classificamos) preferimos cruzar os braços e colocarmo-nos na posição de vítimas, sem nos darmos ao trabalho de analisar as causas e fazermos um esforço para melhorar a nossa condição.
As etiquetas com que somos presenteados pela medicina aumentam e ganham em complexidade de dia para dia. As soluções são geralmente apresentadas na forma de pílulas coloridas a que nos agarramos como única e milagrosa tábua de salvação. E se acabamos por sofrer mais dano, quer físico, quer mental, pela ingestão das mesmas, teremos ainda mais razões para nos redimir da nossa maneira de estar e ser. Afinal, não somos mais do que o produto de circunstâncias variadas e externas, independentes de nós e perante as quais somos totalmente impotentes. Não é essa a mensagem que continuamente vemos difundida em tribunais por aqueles que são os pressupostos defensores da justiça?
Quando passaremos a tomar responsabilidade por quem somos, pelos nossos actos e pelas consequências dos mesmos? Quando deixaremos de nos sujeitar a diagnósticos que nos reduzem a um estado de incapacidade e nos categorizam, anulando a nossa individualidade e poder? Quando rejeitaremos a tendência de nos vitimizarmos e culparmos os outros por determinados aspectos do nosso carácter?


Olá Julieta Ferreira
Desde a primeira hora sou admirador, tenho o seu blogue nos meus favoritos e vou dando uma vista de olhos ao seu interessante trabalho, não tenho comentado é certo, mas gosto de confrontar e aprender sempre, que possível.
Neste caso, os nervos podem ser impeditivos, como modesto por natureza, acontece-me por vezes. No dia seguinte voltarei à carga, não à desistência, conto muito com a hirpertensão, um facto considerado maligno, mas serve para não desistir nunca.
Essa soube e ganho!
Por esta medida, penso se o facto nervos, não serve de desculpabilização.
Porque, por exemplo, em exames fui sempre rapidíssiiiiiimo (sistema nervoso, diria hipertensão) e passava, inevitávelmente!
Peço desculpa, porque acabei por desabafar.
De resto considero-a.
Daniel Costa
Olá Julieta
Concordo. Os nervosos que usam ‘os nervos’ para se desculparem e nos infernizarem a vida…é bom que vão morrer longe. São aborrecidos; e invocam uma doença que, por norma, dá cabo da vida dos outros. Santa paciência!…
E depois há o lado de que falas. A tentativa de fuga ao que se é. Como se ‘os nervos’ fossem qualquer coisa de estrangeiro. Mas os nervos dos nervosinhos são deles, fazem parte da sua constituição(quer se situem ao nível psíquico ou biológico). Se são deles, aguentem-nos. É uma falta de elegância fazer os outros sofrê-los.
Um beijito*
Querida Ju:
Excelente imagem e não menos excelente texto!
Quando à pergunta que formulas, olha não sei bem, até porque eu acho que tenho a doença dos nervos fracos e assim…
‘jocas
Olá JU
A culpa deste estado de coisas é também dos políticos que nunca tem culpa de nada do qe acontece de errado no país! Se as coisas dão para o torto, a “culpa” é da conjuntura económica, das greves, da oposição, das leis restritivas, dos empresários, dos trabalhadores…
Com exemplos destes como poderemos assumir nossa culpa nas pequenas coisas do nosso quotidiano?
A escola também se “esquece” muitas vezes de explicar às crianças o conceito de “culpa” e como lidar com ele.
Afinal o sentimento de culpa é um sentimento induzido, resultado da educação.
Gostei muito desta tua reflexão.
Abraço
Todos somos feitos da mesma massa.
Os exemplos apresentados como negativos, são-no por serem respostas desajustadas à vida e mais cedo ou mais tarde, a vida confrontar-nos-á com as nossas “cegueiras”, irresponsabilidades e/ou escolhas que fizemos…
Há que saber perdoar a nós próprios e aprendermos com os erros …
Relativamente aos outros, pessoalmente, procuro exercitar a compaixão, face a esses comportamentos…