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O direito à morte

O direito à vida é uma prerrogativa básica que começa mesmo antes do nascimento de qualquer indivíduo e é apresentado em forma de lei numa constituição societária. É assim que muito se tem debatido sobre a cessação da vida intra-uterina ou o direito a uma morte com dignidade quando o paciente decide pôr termo a uma existência de sofrimento onde é negada qualquer melhoria de condição. Para aqueles que seguem um culto religioso, a vida é sagrada e só poderá ser terminada pelo Criador Divino mas, mesmo para muitos dos que não seguem esse princípio, se torna difícil e complexo aceitar o direito à morte. Existe tal direito? E, se existe, em que circunstâncias deve ser posto em práctica?

Quem decide acerca desse direito? O próprio ou os outros?

A regulamentação de uma sociedade ou Estado é feita por um grupo de indivíduos e sofre alterações consoante as mentalidades desses indivíduos.

Na minha opinião, o direito à vida é válido quando protege o ser humano e lhe oferece um sistema ético e judicial que o defende de procedimentos maléficos ou actos criminosos. E também no caso de uma conduta clínica que observa o valor da vida humana e se empenha em ilibar o paciente de enfermidades e, se possível, aumentar a qualidade de vida ou longevidade. Mas quando não se trata de um atentado ou a medicina esgotou todos os seus recursos para preservar a vida daquele que sofre, porquê negar o direito à morte àqueles que assim o desejam e deliberadamente manifestam essa intenção? Muitos alegarão que é um acto contra a natureza ou até egoísta. Já não falando dos que acreditam que só Deus tem o direito de acabar com a vida de qualquer criatura e condenam o aborto, suicídio ou eutanásia como abomináveis crimes ou pecados capitais.

À excepção do aborto que é o resultado de uma decisão tomada por outrem, tanto o suicídio como a eutanásia são actos voluntários, escolhas dos indivíduos que os praticam. São também a consequência de estados fortes de sofrimento, quer mental, quer físico, embora tenham estatutos e diferente aceitação pela sociedade.

O suicídio é um acto solitário de desespero e, na maioria dos casos, impulsivo. Poderia, muitas das vezes, ser evitado por aqueles que, apenas em teoria, advogam a preservação da vida e os direitos humanos mas que, na realidade, preferem voltar as costas, se refugiam num comodismo insolente, decidem ignorar ou negar a responsabilidade que cabe a todos e as razões que levam alguns a tomar tais medidas. Por outro lado, a eutanásia ( do grego morte doce e fácil) é um acto pensado e deliberado pelo indivíduo que agoniza e pede assistência médica e de familiares para pôr fim a uma situação que não terá qualquer melhoria e que culminará numa morte excruciante.

Mas, a lei é a lei e aqueles que a fizeram é que sabem. Sendo a morte a única e absoluta certeza que temos em vida, não nos cabe a nós decidir quando ou como desejamos morrer. Essa é lei divina e humana. Temos muitos direitos mas falta-nos o direito a morrer. Foi com grande admiração e agrado que li, há dias, a notícia sobre um grande nome da política australiana e filantropo que, no seu testamento, deixou uma grande parte da sua fortuna para modificar a lei e tornar legal a eutanásia, depois de ter assistido, impotente e amargurado, ao sofrimento da sua companheira de muitos anos.

A vida não é fácil, não senhor. Nem tão pouco é a morte!

6 comentarios a O direito à morte

  • Isabel

    Boa tarde!
    Confesso que este assunto mexe comigo…Já mudei de opinião face a alguns tipos de aborto, entendo o desespero de quem se suicida, mas ainda não sei o que pensar face à eutanásia…O meu pai faleceu de cancro do estômago e graças a Deus não acamou.Se isso acontecesse, se ele estivesse a sofrer horrores e me pedisse misericórdia, o que pensaria eu?Sei que estaria de mãos atadas face a tal pedido, mas como reagiria?
    Beijinhos

  • Daniela

    Olá Julieta,
    Como sempre, um poste muito bem escrito e um tema actual e polémico.
    Sou crente, católica praticante, não pacifica, isto é, procuro objectividade no meu crer e respostas para as minhas dúvidas.
    Neste caso concreto eu tenho como dado objectivo que a vida não nos pertence, cumpre-nos cuidar dela o melhor que formos capazes.A vida é um bem maior.
    Como mais nova de uma família grande já acompanhei os últimos tempos e momentos de vida de algumas pessoas. Nunca ninguém me colocou nesse dilema.
    Se alguma vez passar por tal provação só peço a Deus que me dê capacidade para ajudar a minorar o sofrimento e eventual desespero.
    Respeito as decisões de cada um pois, não me cabe a mim julgar quem quer que seja.
    Beijinhos e tudo de bom onde estiveres.
    Daniela

  • Querida Ju:
    Já te tinha dito: O que nos rodeia está impregnado de uma profunda hipócrisia! Tanto no caso do suicidio como no da eutanásia, em causa está a liberdade de cada um, em fazer o que lhe aprouver da própria vida. Já diz a canção “ninguém de ninguém”, por isso somos todos livres. Contudo, no caso do suicidio, a regra é que o descernimento da vitima está toldado por agonias, depressões, vazios que a sociedade que proibe o suicidio, não colmatou, elementos da vivência de um seu membro a que não esteve atenta.
    No que concerne à eutanásia e em situações de extremo sofrimento ou em que a qualidade de vida esteja abaixo do razoável sou favorável.
    Viva a liberdade!
    Beijos.

  • Obrigada amigos pelas contribuições valiosas ao meu texto. Sei que é um assunto controverso e que muitos preferem ignorar mas, como vocês já sabem, para mim não há temas que sejam tabu :)
    Fico particularmente contente ao “ver” por aqui a Isabel e a Daniela.
    Abraço forte para vocês.

  • TULIPA

    Só quem viveu de perto uma ( ou mais ) situação semelhante, em que a agonia é tremenda e a esperança nula , é que melhor compreende a necessidade da eutanásia ser liberalizada e não punida.O que quer um doente terminal que tenta , apesar das suas escassas forças, desligar-se de todas as máquinas a que está ligado e, por isso, é amarrado pelos médicos ? Para quê, se no dia seguinte morreu ?Como foram aquelas últimas horas dele? Amarrado e imaginamos como se deve ter sentido !….Só agonia ! Deixem morrer quem está em sofrimento atroz e não tem salvação possível !!
    Sou a favor da eutanásia, sim !!!

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