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Pensamentos…

Ele senta-se em frente de mim ou ao meu lado. Tanto faz. É um desconhecido. Ou era. Talvez nunca tenha sido. Agora não posso evitá-lo. A sua presença é viva, real. Já não faz parte da construção do meu pensamento, da ideia que tinha acerca dele. Olho-o e continuo a construir, a elaborar sobre ele. Escuto as suas palavras, noto as suas expressões, detenho-me nos seus traços e movimentos. Não paro de julgar o que ele é na realidade. Mas que realidade? A dele ou a minha? Aquela que eu percebo na minha inaptidão de conhecer quem quer que seja ou a realidade que ele me quer mostrar? Mas essa talvez não seja a realidade de que ele é feito. Apenas aquela que ele deseja que os outros vejam. Confusão! Cá estou eu a analisar. Ele diz que é o meu lado masculino porque, se eu desse asas ao meu lado feminino, deixar-me-ia levar pelas emoções, com o coração aberto. Nunca tinha pensado no meu lado masculino. E, de repente, dou-me conta de que ele tem razão. Fico presa às suas palavras e sigo o seu raciocínio.
Ele faz-me pensar no meu coração fechado. Estará? Incomoda-me ao mesmo tempo que me atrai a questão que ele me traz.
Quero sair dali e refugiar-me no espaço que me protege de estranhos e desconhecidos que me fazem pensar e duvidar daquela que sou ou julgo ser. Aquele espaço que me aniquila mas é familiar. Onde eu posso ser quem sou sem máscaras ou subterfúgios. Onde eu penso conhecer-me sem que outros me digam quem sou. Quero fechar-me nesse invólucro que tracei à minha volta. Quero repousar e sentir-me segura. Embora saiba que tudo isso não passa da fabricação da minha mente. Embora saiba que estou a fugir de mim mesma e daquilo que não quero enfrentar. Um coração fechado? Será isso porventura…
Tento desembaraçar-me da pressão dos seus dedos na minha mão fria. Dou por mim a constatar essa frieza. Num segundo, recordo alguém que se referia às mãos frias das mulheres como um facto comum. Não que ele tenha conhecido muitas mulheres. Também ele me obrigou a ver partes de mim que eu tinha relutância em observar. O que nós deixamos escapar mesmo quando pensamos que estamos a ser cautelosos! Mas como ser cauteloso acerca do que é desconhecido para nós próprios? Como esconder aquela parte que nunca quisemos ver ou da qual nos esquecemos
Brinco com o pacotinho de açúcar, deixando o meu interlocutor talvez desapontado. Contudo não desiste, fitando-me com confiança e continuando a falar sobre mim como se me conhecesse. Irrita-me mas não consigo arredar pé. Ele é como um espelho que reflecte a imagem de mim que tenho tentado ignorar. Incrível! Ou talvez seja tudo parte de um jogo e não passe de uma tentativa de me impressionar. Decerto o seu lado masculino está fantasiando sobre a possibilidade de uma relação íntima comigo.
Sinto desconforto e a frieza das minhas mãos é mais pungente. Carência de intimidade foi o que me trouxe ali. No entanto o medo toma posse de mim, mais uma vez. E ele dá-se conta do meu medo, mesmo antes de eu o sentir.
O meu lado masculino… o meu coração fechado… o meu medo… !!
O chá a arrefecer, as minhas mãos esquivas e frias, o som cadenciado da voz do homem a meu lado e os pensamentos em corrupio a falarem-me de uma outra mulher que existira em tempos: uma mulher sem medo, com o coração aberto e um lado feminino que a levou a lugares nunca imaginados e a deixou vazia a sangrar
Será que ele também vê essa mulher?
E vejo-me noutro café, numa outra cidade, num tempo longínquo e nunca esquecido. Estou em frente de outro desconhecido, as minhas mãos frias e trémulas aconchegadas nas dele, lágrimas a turvarem o meu semblante e dor a corroer-me as entranhas. Mas mesmo assim o meu coração mantivera-se aberto. Até quando?

2 comentarios a Pensamentos…

  • Querida Ju:
    Continuas a ser um coração aberto! Quiça a tua interrogação seja fruto da “confusão” que sentimos quando estamos com um déficite afectivo, que nos aconchegue o ego. Quem sabe?
    As experiências transformam-nos. Desejemos é que elas sejam boas.
    Beijos

  • meninosdocoro


    Tu bem sabes que não se é feliz de coração fechado. Que o coração aberto é um risco. Mas é um risco viver. E, ainda que outra vida possa haver, não será igual a esta.
    Um beijo doce

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