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Por Lisboa… com Pessoa – Parte II


Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavorosamente perdida…
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui…

Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.

Outra vez te revejo – Lisboa e Tejo e tudo –,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver…

Contrariamente aos sentimentos expressos por Álvaro de Campos, eu reganho a minha infância, nesta cidade que revisito e revejo, único lugar onde não me sinto estrangeira porque é aqui que o meu coração está mais perto e a alma é mais minha.
Assim, continuei pela Rua da Bempostinha, depois de ter refreado a vontade de tocar à campainha do rés-do-chão, do número 9, pedindo para que me franqueassem a entrada no apartamento onde as paredes guardam ainda a memória dos meus tempos de menina. Quando cheguei ao Largo do Mitelo, reparei nos contrastes gritantes – de um lado, a fachada do palácio seiscentista cujo pátio de entrada é tido como um dos mais antigos da capital e onde se destacam os azulejos pintados à mão; no meio do largo, os bancos de madeira carcomida e suja, possivelmente lugar de repouso para alguns pedintes ou vagabundos; numa esquina, o Restaurante Churrasqueira Manolo publicitando, em letras grandes e negras, a sua especialidade de grelhados no carvão. Atravessei a rua sulcada de carris e encontrei-me no Jardim do Campo de Santana, local de tantas brincadeiras, sob o olhar atento e carinhoso do meu pai. O que notei logo foi o ar tristonho daquele canteiro plantado no meio da cidade. Ou talvez fosse eu a projectar qualquer sentimento que me assaltara, quando recuei no tempo. Observei, um pouco constrita, os idosos sentados por todo o lado, aquecendo-se ao sol, de bonés a proteger os cabelos ralos e grisalhos, as peles enrugadas, os membros tolhidos e os olhos vagos ou cerrados. Na paragem de autocarro mais próxima, parou o 723 e, mesmo sem ver o destino que levava, eu sabia que iria terminar no Desterro. O número tinha sido acrescido de um 7 e a aparência tinha mudado mas há mais de quarenta anos que percorre o mesmo trajecto. Fui passeando pelo meio do jardim e absorvendo os sons coloridos das aves que circundam por ali, embelezando aquele recinto e distraindo os espíritos cansados dos solitários.

Ao chegar à praça onde se ergue o edifício que um dia albergou uma dependência do Ministério da Educação, onde fui escriturária, após a saída do liceu, deparei com um grupo de estudantes, sentados em redor da imponente e carismática estátua do Dr. Sousa Martins. Em traços firmes e criadores, passavam para o papel a figura que tem sido objecto de culto e procurada por muitos, fervorosos crentes dos seus poderes milagrosos. Detive-me, por alguns instantes, a ler as inúmeras placas de mármore, testemunho de graças obtidas e favores alcançados. O sol raiava agora no seu apogeu e Lisboa sorria-lhe, vaidosa e ufana. Segui em direcção à Calçada do Lavra, passando pelo Jardim do Torel, palco do meu primeiro beijo, trocado na sombra protectora e cúmplice do seu caramanchão. Os portões encontravam-se cerrados para meu desapontamento e o jardim, despido e abandonado, espera ansioso uma nova indumentária. Desci os degraus gastos da calçada, onde o elevador se encontra parado, bendizendo a confortável segurança dos meus sapatos rasos.

Continua…

5 comentarios a Por Lisboa… com Pessoa – Parte II

  • laura

    OLÁ, VIVA!

    Lisboa é uma cidade de luz branca. nela, toda a graça de ser ao mesmo tempo metrópole e província . A quem lhe tem saudade, tudo chama.
    Um abraço e boa estadia

  • M. Eduarda Gonçalves

    É uma experiência grata, reconfortante voltar aos lugares tão caros da infância… É quase recuar a um tempo distante e fugidio que guarda partes muito significativas das nossas vidas. Obrigada pela partilha dessa experiência tão íntima.
    Um abraço da
    Eduarda

  • Manuel Dias

    Estou a gostar dos seus escritos sobre Lisboa, em Lisboa, dando conta desses bairros, ruas e avenidas que fazem parte do nosso dia a dia…Penso que, ao introduzir Pessoa, o seu trabalho tem um Valor Acrescentado, como elemento de referencia muito bem enquadrado em tudo o que nos transmite…. Bem haja, Julieta.

  • São Martins

    Continuo a descobrir algumas coincidências biográficas e outras , entre a Julieta e Pessoa (devem ser óbvias para quem conhece a sua biografia e a de Pessoa…) eu vou-as descobrindo, ao tempo que a vou conhecendo melhor …

    “Realidade”

    Sim, passava aqui frequentemente há vinte anos…
    Nada está mudado – ou, pelo menos, não dou por isso –
    Nesta localidade da cidade…
    .
    Há vinte anos!…
    O que eu era então! Ora, era outro…
    Há vinte anos e as casas não sabem de nada…
    … … …
    Álvaro de campos, 15/12/1932

    Achei engraçado, pois estes versos poderiam ser seus, não é verdade? (salvaguardando os diferentes sentimentos/estados de alma verificados em Julieta e Pessoa pela vossa cidade natal.)
    Um abraço

  • Lia

    Adorei, nasci no Campo de Santana e aqui continuo e como gosto de ler sobre o nosso Bairro.

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