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Por Lisboa… com Pessoa

Sobre sete colinas, que são outros tantos pontos de observação de onde se podem desfrutar magníficos panoramas, estende-se a vasta, irregular e multicolorida aglomeração de casas que constitui Lisboa. Para o viajante que chega por mar, Lisboa, vista assim de longe, ergue-se como a formosa visão de um sonho elevando-se até ao azul intenso do céu, que o sol aviva.

Assim descreve Pessoa a cidade onde nasceu, onde viveu a maior parte da sua vida e que amou com um amor tão igual ao meu! No livro que escreveu em inglês, para turistas, ele enaltece Lisboa e muitos terão criticado o exagero das suas descrições por se afastarem de uma realidade menos perfeita. Talvez tenham razão mas eu entendo as motivações do poeta e teria feito o mesmo. Curioso que, na sexta-feira à noite, assisti a um programa, na RTP2, sobre o seu Livro do Desassossego, num percurso que me levou a constatar muitos factos que desconhecia sobre esta figura que se tornou emblemática, na minha cidade. Cidade que eu havia palmilhado, nessa tarde, num dos muitos passeios que me levam a redescobrir pontos do passado e a reviver momentos guardados e preservados pela memória.

Desci a Almirante Reis, pela hora da sesta, aproveitando os raios luminosos do sol para dispersarem o desconforto de um ventinho menos convidativo. Ao passar pela Igreja dos Anjos, lembrei ter sido ali o casamento dos meus pais e também o meu baptizado. Duas ocasiões que apenas recordo, evidentemente, pelas fotografias amarelecidas da minha mãe e pelos seus repetidos, emotivos relatos. Ao chegar ao Intendente – bafiento e descolorido, como sempre o conheci – tive saudades do antigo Cinema Lys, na esquina, transformado num Supermercado de Sapatos. Mas a Pastelaria Delta ainda lá se encontra, do lado oposto da avenida, onde eu costumava ir lanchar, depois das matinées de domingo. Subi a calçada íngreme que, passando na orla do Paço da Rainha, me levaria à rua onde nasci. Fui pisando as pedras enegrecidas e irregulares, apercebendo-me que as lojas de então se mantinham inalteráveis. Talvez por ser uma hora propícia ao descanso e recolhimento, não se via praticamente ninguém. Uma mulher acamava a fruta e legumes, em caixotes, na entrada do lugar onde, tantas vezes, tinha ido às compras, com a minha avó. Já quase a contornar a esquina, ouvi uma voz de homem, num tom garrido – hum … hoje há couves, vamos ter cozido! – Sorri, com aquela nota de tipicidade, a quebrar o abandono desolador de um espaço que o tempo marcara e maltratara. Ao encaminhar-me, com vagar, para a Rua dos Castelinhos – nome que ainda hoje acho curioso e para o qual nunca encontrei explicação – cogitei sobre a quantidade de vezes que os meus pés teriam percorrido aquele mesmo trajecto, num período superior a duas décadas. Emocionei-me quando certas sensações e imagens do passado ressurgiram e me deixaram perdida, no vácuo do tempo. Fiquei parada, frente ao prédio de feição triste e sórdida. Olhei as janelas, com persianas de uma brancura aberrante, a contrastar com a pintura gasta. Era como se estivesse a ver um rosto enxovalhado, sulcado de rugas, com os lábios pintados de carmesim. Quedei-me, recapitulando momentos de sonho e amargura.

Continua…

1 comentario a Por Lisboa… com Pessoa

  • São Martins

    “Outra vez te revejo,
    Cidade da minha infância pavorosamente perdida…
    Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui…
    Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
    E aqui tornei a voltar, e a voltar,
    E aqui de novo tornei a voltar?
    Ou somos, todos os Eu que aqui estive e estiveram,
    uma série de contas-entes ligadas por um fio-memória,
    Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?”

    Lisbon Revisited, Álvaro de Campos,”Poesia dos Outros Eus”

    Ao ler “Lisbon Revisited” e ao chegar à estrofe transcrita, lembrei-me de si, Julieta…

    Continuação de boa estadia, e continue a partilhar connosco estas viagens por Lisboa e lugares da sua infância…

    Um abraço

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