
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe
de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos
nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.
Alberto Caeiro, o simples guardador de rebanhos a quem Pessoa chamou o Mestre, pensava que nas cidades a vida é mais pequena, denunciando uma personalidade completamente oposta à do discípulo. Depois de nove anos na África do Sul, Pessoa regressou a Lisboa e dela nunca se afastou porque não necessitava sair da cidade para sentir o mundo. Para ele a vida em Lisboa era uma vida grande e a cidade era o seu lar – Oh, Lisboa, meu lar! –. Do mesmo modo que é para mim. E, neste lar, eu continuo a maravilhar-me e a emocionar-me.
Ao fundo das escadinhas, íngremes e estreitas, ladeadas por um corrimão de ferro preto, estava à minha espera o centro da cidade. No Largo da Anunciada, virei à esquerda e segui pela Rua das Portas de Santo Antão. Os restaurantes e cafés estavam apinhados de turistas, saboreando a nossa apetitosa e suculenta gastronomia, acariciados por um sol divinal. Mais uma vez, senti vaidade – pelo que temos, pelo que somos, pelo que oferecemos a quem nos visita, pela cidade que, sendo tão cosmopolita, continua a ser só nossa – Os meus passos tornaram-se vagarosos e o meu sorriso dilatou-se, acompanhando o júbilo que me saltava no peito. No Largo de São Domingos a multidão era outra. Uma mulher excêntrica gesticulava e falava alto, para si própria, num monólogo que mais não era senão a voz do pensamento, geralmente encoberta, nos que chamamos normais. Para apaziguar a canseira da caminhada e refrescar a garganta, sentei-me na esplanada da Suíça, do lado da Praça da Figueira, já que não consegui uma mesa vaga, na Praça Dom Pedro V, mais conhecida pelo seu antigo nome de Rossio, uma das praças mais bonitas da capital e o seu coração, desde há seis séculos. Quedei-me com um livro que levara, sem conseguir abri-lo, porque tudo ao meu redor exigia o meu desvelo. Bebi um sumo de morango, de olhos pregados no castelo que nunca deixa de nos contar uma História, abarcando Lisboa com o seu olhar protector.
Ao atravessar o Rossio, voltei a fascinar-me com a Rua Augusta e o seu Arco, emoldurando uma das praças mais privilegiadas e apreciadas, na Europa. Eu continuo a chamar-lhe Terreiro do Paço e não vejam nisso qualquer inclinação monárquica. A subida pelo Chiado é sempre um dos meus passeios preferidos e inevitáveis. Lá fui encontrar o Pessoa que, desde há uns anos, não arreda o pé da Brasileira e figurará, porventura, em muitos dos álbuns dos turistas que nos visitam. Mas eu cá prefiro mesmo o outro, aquele que perdura nas palavras que nos legou. Também me apraz imaginar o seu espírito pairando ainda sobre a cidade que tanto amou.


Liberdade
Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa…
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca…
Fernando Pessoa
Hoje deixo-lhe este poema, um dos que sei de cor e salteado, por tantas vezes o “trabalhar” em termos profissionais…
Um beijinho