O sol banha-a rendido aos seus encantos
Fadistas choram seus prantos em canto magoado
Cauteleiros de pé firme nas esquinas
Na Brasileira um passado de rimas
Mendigos ostentam lamúrias e chagas
O Tejo une-se a ela num abraço enamorado
Poetas que a versejaram foram tantos.
Gatos espreguiçam-se nas varandas floridas
Roupa branca esvoaça nos estendais das ruelas
Crianças buliçosas rodopiam nos quintais
Quiosques vendem os matutinos jornais
Flausinas passeiam-se de mãos dadas
Amantes perdem-se pelas antigas vielas
Passos ressoam nas calçadas carcomidas.
Os ventos sopram doçuras nas colinas
Vendedores deambulam pelas avenidas
A luz reflecte-se no vermelho dos telhados
Escritores em esculturas imortalizados
Crentes rezam suas preces caladas
O prazer ofertado das mulheres perdidas
Bandeiras desbotadas mostram suas quinas.
Odores de rio e café na baixa do Marquês
Floristas dispõem ramalhetes coloridos
Engraxadores aguardam clientes pressurosos
Turistas contemplam monumentos famosos
A brisa fustiga as tristezas soluçadas
O adeus penoso que entorpece os sentidos
A dor amarga dos que já não vês.
No metro atulhado acotovelam-se os alfacinhas
O som plangente e vivo da guitarra sem idade
Mulher velha pedinte resguarda-se do frio
Som alegre do acórdão nos passeios do Rossio
Estátuas erguidos tributos de eras passadas
O Parque Mayer despovoado invoca a saudade
Nas igrejas do Chiado murmúrio de ladainhas.
O castelo fala-nos de História
Gaivotas conversam com o rio amigo
Dançam sensuais em volta de veleiros
Miradouros sobranceiam casarios caiados
Pombas esvoaçam alegres pelas praças
Reis atestam a nossa glória
Velozes fendem as águas os cacilheiros
E eu na solidão dos meus cuidados
Tento soltar-me das mordaças
Anseio voltar para o teu abrigo.
Recordo-te saudosa 1 de Março 2007
Nesta terra que me tolhe a liberdade
Quero ficar
Essa é a minha verdade!


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