Muitos não se teriam dado conta do feriado no dia 1 de Dezembro: esfumado ou perdido, por entre as idas às compras, ao cinema e ao futebol, ou ainda as lides de casa, num sábado, a umas escassas três semanas do Natal. É bem possível que, para alguns, tivesse despertado mais interesse se calhasse a uma sexta ou segunda-feira, quanto mais não fosse para o bendizerem, já que assim poderiam desfrutar de um fim-de-semana prolongado.
A azáfama é muita, a insatisfação nacional e a falta de patriotismo ainda é maior e não há tempo nem disposição para nos determos em comemorações que, para muitos, foram perdendo o significado e o valor, passando à indiferença. Em alguns, foi mesmo criando-se uma acérrima oposição a essas datas comemorativas; outros nem se lembrarão qual o acontecimento histórico que está na base de tais feriados e estarão pouco interessados, justificando a sua apatia com a desculpa de que não são saudosistas ou nacionalistas. Há ainda aqueles que prefeririam esquecer uma data em que se festeja a reconquista da nossa independência e autonomia como nação, depois de uma união ibérica que durou seis décadas. Esses são os que não me inspiram qualquer respeito ou tolerância. É certo que vivemos numa sociedade democrática com liberdade de expressão e onde devemos reconhecer opiniões diversas e antagónicas. Tudo bem. Mas não temos de estar de acordo com essas ideias, nem de as tolerar quando elas têm a ver com o desejo de uma unificação com a vizinha Espanha.
Acho que muitos de nós herdaram alguns dos traços marcantes do último rei da dinastia de Avis. Tal como esse rei menino, sonhador e aventureiro, desejado e ao mesmo tempo repudiado, muitos dos meus compatriotas olham mais para além das fronteiras lusas, numa ânsia de usufruir aquilo que eles nem saberão exactamente identificar, mas que vêem como a resposta para as suas inquietações. Esses sofrem de um total desapego ao torrão natal e vivem constantemente na idealização de um conceito de vida apenas viável fora da pátria ou então se esta se aliasse ou subjugasse a outra nação. Para o rei Sebastião, que crescera sem laços afectivos, com um pai morto e uma mãe invisível, dominado pelos Jesuítas e por uma avó que sempre se negara a falar na língua portuguesa e à qual unicamente interessava agradar ao irmão, Carlos V, e ao sobrinho, Filipe II de Espanha, não é de estranhar que tenha desconhecido o real significado de patriotismo. É até desculpável, de certo modo, essa ânsia egoísta de abandonar o reino, levado pela atracção de um mundo exótico que, segundo pensava, lhe daria a oportunidade de brilhar e atingir a glória. Se ele tivesse ponderado nas possíveis consequências da sua escolha nefasta, nunca teria partido para África. Impossível esperar-se isso de um rei que nunca colocou a Pátria acima dos seus interesses irreverentes e até desvairados. Tudo se havia conjugado, antes e depois do seu nascimento, para esse estado de coisas.
Foi com Carlos V que surgiu a ideia de uma união ibérica, alimentada com os casamentos sucessivos entre as duas casas reais. O casamento de Catarina da Áustria com o rei português, João III, e a política de governação desta, depois da morte do marido, era já o presságio da concretização desse sonho castelhano. O afastamento da Infanta Joana, mãe de Sebastião, apresenta também motivos questionáveis. Sebastião era a única e derradeira esperança para a continuação de um reino independente, e um entrave para as ambições da poderosa Espanha. Tivesse ele um forte sentimento a ligá-lo à pátria e não teria sido tão fácil ser manipulado por aqueles que desejavam afastá-lo de vez, deixando o caminho aberto para o alargamento de um Império já então vasto. Sebastião caiu na armadilha que lhe fora lançada pelo tio e seus conselheiros. Quanto a mim, não era a conquista do norte de Africa ou a conversão do gentio à fé cristã que verdadeiramente o moviam, mas sim a febre incontrolável de sair do reino onde se sentia sufocado, como muitos de nós sentimos hoje a necessidade de nos espraiarmos e saborearmos o que fica do outro lado: o gosto da aventura e o desafio do desconhecido que se torna mais apelativo, de tal forma acreditamos que nos trará a salvação.
Estou inclinada a compreender e a desculpar o último cruzado e filho da dinastia de Avis. Já não compreendo ou desculpo aqueles que, tendo herdado uma terra e uma cultura que levaram tanto labor a reconquistar, delas se empenham em desdenhar e a querer que sejam aglutinadas pela nação vizinha.


Ju:
D. Sebastião foi provavelmente o primeiro dos otários em que todos os portugueses se tornaram. Somos os nossos piores inimigos. Todos somos António Variações: só estamos bem onde não estamos e eu, sinceramente, estou farto deles.
Beijos