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7 de Setembro de 2010

10 de Maio de 2009

Rosto do meu povo – Parte I

by Julieta Ferreira — Categories: Crónica2 Comentários

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.


Para Cesário, a cidade revelava-se melancólica e opressora. Era um espaço que o limitava e constrangia. Com vinte e cinco anos, nos finais do século dezanove, o poeta sente-se como que diminuído e oprimido pelo ambiente citadino. Existe nele uma ânsia de evasão que não consigo deixar de comparar ao melancolismo mórbido e alucinatório do rei-menino quinhentista.

Essa mesma tristeza profunda e patológica reaparece noutros autores, atingindo um ponto máximo na complexidade poética do mestre do século passado. Pessoa passeava pela cidade e sentia na alma a ‘negra bílis’ dos lisboetas.

Ah quanta melancolia!
Quanta, quanta solidão!
Aquela alma, que vazia,
Que sinto inútil e fria
Dentro do meu coração!

Há quem afirme que a melancolia se teria instalado, de forma definitiva, nos portugueses, a partir da nefasta e incongruente derrota em Alcácer Quibir. Ou então teria sido herdada dos Mouros e dos seus cânticos que permaneceram em Lisboa, depois da reconquista cristã. O Fado, de origem obscura, segundo algumas teorias, teria sido proveniente desses cânticos e daí o seu carácter dolente e melancólico. Seja como for, o certo é que a nostalgia, desilusão e resignação assaltam e invadem o nosso povo. Os poetas, melhor do que ninguém, entenderam esses sentimentos e expressaram-nos de formas variadas. Como eles, eu tenho sentido, na pele e na alma, esta maneira tão lusitana de sermos e estarmos no mundo. Mas, ao contrário de Cesário ou Pessoa, a cidade dispersa a minha melancolia e serena a minha nostalgia. Em mim, a desilusão surge da vontade de permanência, ao invés de fuga. E tão pouco me resignarei a um destino, enquanto continuar a acreditar nas infinitas leis do Universo e na minha inabalável determinação.

Ao palmilhar Lisboa, saboreando e sorvendo as nuances com que ela sempre me surpreende, em cada viela, praça ou esquina, eu vejo o rosto do meu povo. E vejo-o com esse vagar, emoção e deslumbramento, ausentes nas faces e vidas dos lisboetas. Pressurosos, desinteressados ou decepcionados, deixaram há muito de olhar a sua cidade e de se reconhecerem, dentro dela. Olho os pedintes de corpos chagados e andrajosos, na entrada das igrejas, e oiço as suas lamúrias. As mulheres prenhes e mal cheirosas, de criança chorosa, nos braços cansados. O homem de face enrugada e mãos calejadas que tacteia o lajedo com a bengala vacilante. Escuto o zunido dos homens, discutindo futebol e bebericando ginjinha, no Largo de São Domingos. Observo os velhos, aos magotes, de chapéu às três pancadas, atentos ao naipe de cartas, pés pesados sobre o relvado, no centro da Alameda.

Continua…

2 Comentários »

  1. Querida Ju, como eu te entendo. Os portugueses têm medo de ser!
    Beijos

  2. São Martins diz:

    Todos temos alguma tendência em não olhar com “olhos de ver” a beleza do que nos é próximo… e, ás vezes, também o que é menos belo!

    Somos um povo belo… por que não? Pessoalmente, tendo a ser optimista, na minha postura perante a vida! Esta postura advém, em parte do facto de trabalhar com crianças que me renova a esperança num mundo melhor.
    E gosto de pessoas!!! (em contrapartida, sendo incapaz de fazer mal a um animal, evito-os… quando tenho plantas, infelizes delas, acabam por morrer às minhas mãos…)

    Lisboa é uma belíssima cidade!!!!
    Um beijinho

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