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Ser emigrante

EmigrantesMuitos portugueses nunca saíram de Portugal. Para muitos outros, o máximo período de ausência, no estrangeiro, limita-se a um mês de férias, por ano. Ainda há aqueles que nunca estiveram em directo contacto com emigrantes e o conhecimento que têm sobre emigração é um conhecimento vago. Trabalhei numa organização subsidiada pelo governo australiano, dando apoio a emigrantes e refugiados. Por isso, tive o privilégio de conhecer, por dentro, muitas das motivações e problemas de uma classe que, ainda hoje, não é totalmente aceite na sociedade australiana. (Não se passará o mesmo em Portugal, em relação ao afluxo de emigrantes dos países do Leste, nos últimos anos?) Estive envolvida em projectos onde defendi, apaixonadamente, os seus direitos e lutei, com desassombro, contra a discriminação e o racismo. Colaborei com professores, para a integração de alunos de várias ideologias e etnias; apresentei seminários para fomentar o respeito, a apreciação e aceitação de valores culturais diversos.

Nos últimos 24 anos tenho vivido num país onde, em 1997, uma senhora chamada Pauline Hanson, proprietária de um take-away shop (o equivalente de tasca, em Portugal) resolveu organizar um Partido a que deu o nome de One Nation. Este opunha-se à entrada de uma certa categoria de emigrantes, na Austrália, e defendia a abolição de muitas das regalias sociais para grupos menos favorecidos. Em 1998, ganhou 11 dos 89 lugares na Assembleia Legislativa do Estado de Queensland e, numa sondagem feita pelo jornal, The Bulletin, Pauline Hanson foi nomeada como uma das 100 pessoas mais influentes, na sociedade australiana, de todos os tempos!

Tenho visto, de muito perto, a dor estampada nos rostos daqueles que abandonaram a sua pátria, por razões tão variadas, e tenho sentido essa mesma dor, na minha pele, na minha alma e no meu coração.

Eu sei o que é ser emigrante! É estar com um pé cá e outro lá. É não pertencer nem aqui nem ali. É não ser aceite pelo país de adopção e, às vezes, também não ser aceite pelo país de origem. É ser julgado pelos outros, até mesmo os seus compatriotas. É ser visto como lá de fora, quer se encontre no seu país ou no país para onde emigrou. É não poder emitir certas opiniões, sem receber um olhar condescendente ou uma observação que o coloca numa posição de inferioridade.

Nunca tive uma mala de cartão à espera da primeira oportunidade, para sair do armário. Se emigrei foi porque dei ouvidos à voz do coração e embarquei num sonho que não era o meu. O facto de ter, arquivado algures, um certificado a atestar a minha nacionalidade australiana, está muito longe de fazer de mim uma australiana ou de me qualificar como menos portuguesa! Contudo, ainda há aqueles que não entendem isso.

Sou hoje mais portuguesa do que no dia que deixei Portugal e o amor que sinto pelo meu País pode comparar-se àquele amor, redobrado e mais fortalecido, por aquilo ou por alguém que um dia se perdeu e, por isso, nos fez compreender o quanto lhe queríamos e a falta que nos faz.

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