
Foi depois de ter lido o comentário de uma amiga ao meu poema – Há dias assim – que surgiu a motivação para escrever o artigo que se segue.
Num momento ou outro, todo o poeta questiona a sua identidade como poeta, tentando defini-la, debruçando-se sobre o próprio acto de criação. Muitos dos poetas, que tão bem conhecemos, escolheram a forma que melhor sabiam para deliberarem sobre este tema, deixando-nos um espólio de versos, traduzindo essa procura contínua em se explicarem como fazedores de poesia e em mostrarem ao leitor o que significava, para eles, a produção poética.
Foi assim que o genial e multifacetado Pessoa nos deixou uma imparável definição do poeta e da poesia, numa composição magistral de auto-análise, onde joga com os conceitos do real e do imaginário, mostrando ao leitor como a vida se entrecruza com a arte.
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
Pessoa usa o conceito de dor em três níveis distintos – dor real (sentida ou vivida pelo poeta), dor imaginada (imagens da escrita criadas pelo pensamento) e ainda a dor percebida pelo leitor (intelectualização e fruição artística).
Tal como no pensamento e no sentir não existem estruturas sintácticas e semânticas, não há lógica nem normas, assim é a poesia ou assim parece ser. Porque a poesia é a forma escrita que mais e melhor se aproxima da liberdade do pensar e do sentir, com as suas incongruências e paradoxos, somos levados a julgar que ela é o puro e directo reflexo das emoções do autor. No entanto, não nos iludemos. Não é assim tão linear.
Certo que o poeta parte sempre de uma realidade-real – um estado de espírito, uma emoção, exaltação de sentidos ou vivência – mas que, ao ser transmitida para a escrita, se transforma numa realidade poética. Por muito que pareça que esta é o reflexo puro do que lhe vai na alma e na mente, a realidade do poema é uma realidade construída, idealizada. O poeta movimenta-se entre a sensação e a imaginação. Ele é o artífice da palavra e, como tal, a sua genialidade está em iludir quem o lê, em mascarar a construção, de tal modo que o leitor pense que não há construção. E, nessa construção, mascarada de espontaneidade, existe uma harmonia, ainda que as regras gramaticais sejam subvertidas.
Tal como diz Sophia de Mello Breyner:
Um poema não se programa
Porém a disciplina
-Sílaba por sílaba–
O acompanha.
Sílaba por sílaba
O poema emerge
-Como se os deuses o dessem
O fazemos.
A poetisa claramente alude à construção da realidade poética a que me referi e chega a desmascarar o jogo daquele que escreve – como se os deuses o dessem … o fazemos.
Por seu lado, Alberto Caeiro dá-nos uma ideia bem diferente (como seria de esperar do sensacionista ‘Guardador de Rebanhos’):
Não me importo com as rimas. Raras vezes
Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra.
Penso e escrevo como as flores têm cor.
Ou ainda,
Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento
Contudo, o “Mestre” de Pessoa, apologista da simplicidade, não é mais do que um ser fictício e tudo o que escreve é, sem dúvida, o produto da mente prodigiosa do seu criador e, como tal, uma construção que assenta numa realidade imaginária.
Seja como for e qualquer que seja a posição tomada pelos poetas, não nos esqueçamos que estamos sempre na presença de seres que jogam com as palavras e os seus múltiplos sentidos, ocultando do leitor esse jogo, assim como malabaristas que manipulam objectos com perícia, nunca dando a conhecer as suas manobras ou truques.
No conceito de Florbela Espanca, o poeta é muito mais do que um artífice ou malabarista, ficando muito para além dos mortais:
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!
Mas será mesmo? Será o poeta maior do que os homens? O Ser e o Parecer estão patentes nestes versos da poetisa que tão bem deu voz ao erotismo feminino e a estados profundos de solidão e desencanto. Estamos, novamente, perante um jogo bem engendrado de palavras e conceitos.
Por sua vez, Garrett pensava que o poeta se assemelha à mulher enamorada, quando afirma: “São os dois entes mais parecidos da Natureza, o poeta e a mulher enamorada: vêem, sentem, pensam, falam como a outra gente não vê, não sente, não pensa nem fala.”
Novamente encontramos a diferença entre o poeta e a outra gente, com a excepção da mulher enamorada. O poeta é capaz de ver, sentir, pensar e falar de uma forma distinta. Talvez porque, no dizer de Sebastião da Gama…
O poeta beija tudo, graças a Deus…. E aprende com as coisas a sua lição de sinceridade…E comove-se com coisas de nada …. e acha que tudo é importante.
Ou ainda porque ….
Ser misterioso e triste, é ser poeta:
Mesmo a luz que palpita nos teus cantos.
É uma imagem heroica dos teus prantos.
Percorre o teu caminho até ao fundo,
E com os versos que achaste, aumenta o mundo.
Não sejas um escritor, mas um profeta.
Também nestes versos de António Quadros, ao poeta é conferida uma dimensão maior – a de profeta – embora não deixe de ser misterioso e triste. E, mais uma vez, o jogo da construção (imaginação) se encontra evidente nos versos – mesmo a luz que palpita nos teus cantos, é uma imagem heróica dos teus prantos.
Será necessária uma certa tristeza ou melancolia para se ser poeta?
Miguel Torga, no poema que dedicou e intitulou Aos Poetas, exprime essa mesma ideia de tristeza ao versejar : Somos nós as humanas cigarras! Tal como o canto da cigarra, o canto do poeta é triste e magoado. Mas, ao finalizar o poema com a estrofe:
Homens do dia a dia
Que levantem paredes de ilusão!
Homens de pés no chão,
Que se calcem de sonho e de poesia
Pela graça infantil da vossa mão!
o poeta é agora comparado a uma criança, cuja infantilidade graciosa, tem a capacidade de trazer o sonho, a ilusão e a poesia (sinónimo de inspiração) aos homens.
Quer seja um fingidor, artífice ou malabarista, humilde, simplicista, profeta ou ainda um ser maior, todo o poeta é misterioso. Ao falar de si ou para si, está, simultaneamente, a falar dos outros e para os outros, nunca se dando a conhecer inteiramente.
Como disse a minha amiga, nesse comentário que suscitou esta minha reflexão,… os poetas mostram de forma única o que é de todos, parecendo só deles. Contudo, é bom termos em mente que a interpretação da realidade do poema é tingida pelas “realidades” dos vários leitores. E ainda que, por muitas análises que forem feitas, nunca chegaremos a tocar a essência de qualquer poema. Essa fica perdida entre o real e o imaginário.


Bolas!!!Jú, o que tu escreves a partir das minhas humildes palavritas!…até fico corada. E agora digo o quê?! Pouco. Que tudo em nós é contrução. Não somos esses seres simples e virginais, não há Albertos Caeiros puros, salvo, hélas, na cabeça de Pessoa. E sabes o que disse Sophia? que o cerne do poema sempre lhe apareceu feito, que ela era só uma antena a captar essa verdade. Depois vinha o trabalho sobre e a partir disso que lhe aparecia; e, salientava, nunca o que o trabalho produziu foi o melhor do poema.
))
Não sei jú, mas o poeta tem algo de divino que perpassa nas palavras sem que nelas se esgote, um exagerado sentir de fundos e cumes. Tu és poeta. Eu leio e entendo poesia
Olá Julieta
Escreves tão bem que nem sei como comentar-te. Sim, os poetas são mais que homens, transportam-nos para uma espécie de terra divinal.
Beijinhos
deixo uma transcrição que acho importante. e que gosto particularmente…
pois que a divulgação da poesia apela à divulgação de novos poetas…
“ser poeta não é ser mais alto
nem ser mais baixo
nem mais verdadeiro
nem mais certeiro
nem mais inteiro
nem coisa boa
ser poeta é ser pessoa!”
de João Abreu