
A chuva não me aborrece. Nem a densidade cinza, que teima em abraçar a cidade, me desassossega. Até o vento não me agasta. Como se tivesse ganho imunidade a estes elementos que outrora chegaram a deprimir-me. Mas isso era num lugar onde a minha alma sufocava, sem brilho, e o meu corpo se arrastava disperso, sem norte. Quando o meu olhar não era senhor do que contemplava. A paisagem era alheia, mesmo incomodativa. Daí o meu ânimo ser diferente.
Agora sinto-me dona do que o meu olhar abarca. Como se possuísse tudo o que vejo. Como se fosse possível ser eu a única a pertencer a esta cidade. Como se fosse possível ser eu a única a vê-la e a sabê-la. Apenas pretensão minha. Contudo, a maneira como a vejo e a sinto é singular, exclusiva. Tenho mesmo vaidade desta minha união com ela. E dou por mim a sorrir-lhe, num enlevo ousado, que passeio pelas suas avenidas e praças; ou nos autocarros bafientos onde me sento, de olhos colados à janela, esquecida dos meus companheiros de viagem. Qual amante que só vê o objecto do seu afecto.
Estou imune aos seus desgastes e às intempéries que a varrem. Deixou de me habitar essa urgência febril de chegar ou de partir, de querer saber o fim de tudo ou o começo do que ainda ficou por inventar. Parou em mim a inquietação de desejar perceber a obscuridade do meu fado. Trago comigo o vagar e a calma. Ando leve, com a leveza descuidada de quem não olha para trás ou vacila. Sem medir ou pesar nada.
Vejo o tempo a passar e já não me angustia. Porque este é o tempo certo, sem mancha ou embuste. Estou liberta da que fui quando desaprendi as histórias encobertas nas estrelas. Guardo em mim a veracidade dos acordes do momento que oiço no vento a silvar.


Só me resta dar-lhe os meus parabéns por mais este texto com muito engenho que nos disponibiliza…Bem haja!