Visitantes Únicos

DESENCONTROS

Trabalhava rodeado de mulheres. Por isso não era de estranhar ouvir algumas das suas conversas, sem querer. O assunto preferido delas era falar dos homens e das suas infidelidades. Às vezes, metia-se com elas, gostava de as atiçar para ver a reacção assanhada de uma ou outra, mais vocal. Com ele, estavam à vontade; podiam falar abertamente porque o consideravam um exemplar muito raro.
Quem lhes dera a elas encontrarem um homem assim!
Não andava atrás de saias; era um marido devoto e apaixonado, vivendo numa relação que já durava há vinte anos. Confiavam nele e procuravam-no, pedindo-lhe a opinião quando se sentiam mais vulneráveis. Todas tinham problemas amorosos: uma era demasiado crente e ingénua; outra armava-se em vítima; havia também aquela que se apaixonava, por dá cá aquela palha, e julgava que seria para toda a vida.
Gostava mais de conversar com a secretária, mulher de uma beleza serena, inteligente, dona de grande sensatez. Mesmo assim, ao que parecia, vivia angustiada por não entender a falta de interesse do marido que preferia a companhia de mulheres mais novas.
Ele era diferente e, por isso mesmo, as mulheres respeitavam-no: aduladoras até, esmerando-se em agradar-lhe. Ele era a personificação do que elas idealizavam num homem. Não é que fosse menos másculo do que os demais, não tivesse os mesmos desejos. Apreciava as mulheres, gostava mesmo de as fotografar, captando-lhes a sensualidade, naquele abandono sublime e provocante de corpos desnudados. Fantasiava, às vezes, mas ficava-se pelo devaneio. Acreditava na solenidade dos votos do matrimónio; acreditava no amor vivido em transparência, sem subterfúgios; acreditava no valor de um compromisso; acreditava numa relação sem falsidade.
Julgava-se feliz e satisfeito mas havia momentos em que tinha as suas dúvidas. Que diabo, era afinal um ser humano, com todas as fraquezas e incertezas, inerentes a essa condição.
Vivia uma vida familiar onde os momentos altos balançavam os mais baixos, sem grandes rasgos de entusiasmo mas em harmonia e equilíbrio. Sentia a segurança de uma união estável com a mulher que tinha escolhido. Não se podia queixar.
À noitinha, depois de um dia de trabalho e de ouvir a incessante tagarelice das outras mulheres, gostava de se aninhar com aquela que era a sua, repousando a cabeça no seu regaço, deixando que ela lhe afagasse o cabelo que começava já a escassear. Não haveria mais a paixão dos primeiros anos, contudo havia um afecto que ele não trocaria por nada deste mundo.
Aconchegado à mulher, de olhos fechados, sorria ao pensar que ela não se lamentaria do marido que tinha, como as outras que ele conhecia. Sentia um certo orgulho; o seu ego ficava inchado.
Achava, então, que valia a pena ser um homem diferente.
Isso foi o que ele pensou até descobrir a deslealdade daquela que julgara conhecer e vir a saber do engano em que vivera, nos últimos cinco anos.
Durante muito tempo, passaria a ser ainda mais apreciado pelas mulheres que o presenteavam com pequenos mimos, o convidavam para almoçar; nem se importavam de ficar até mais tarde, no escritório, só para lhe fazerem companhia e ouvirem-no falar da situação (como elas diziam) que estava a viver. Agora tinham uma diversão para os seus problemas, algo de diferente e inesperado para lhes ocupar o pensamento. E, em vez de atacarem os homens, passaram a uma outra forma de ataque, desta vez, dirigido às outras mulheres: essas que enxovalhavam a sua classe e lhe davam um mau nome. Não queriam lá ver! Nem se apercebiam dos disparatados actos que cometiam! Afinal que queriam elas? Não se contentavam com o que tinham, desprezando homens fora do comum!
De tal modo envolvidas em achincalhar as outras da sua espécie, nem se davam conta dos motivos que as levavam a essa insolência.
Ele, por seu lado, amarfanhado pela dor a esmagar-lhe o coração, a raiva a consumi-lo, roubando-lhe o sono e o sossego, nem queria saber. Ouvia-as sim, apenas porque era uma maneira de sentir a solidariedade de alguém, ainda que fingida. Habituado a falar muito pouco da sua vida privada, agora com uma audiência tão zelosa, dava-se ao prazer de verbalizar, em ímpetos de fúria, as mais imprevistas asserções, a que não faltava o colorido de uma linguagem menos vernácula.
Se não fosse pela amargura e tristeza, a transparecerem no semblante sumido e na voz cansada dele, as cenas daquele escritório poderiam ter saído de uma comédia ou sátira.
Só muito mais tarde, depois de um divórcio que o deixara de rastos e de inúmeras sessões, contando a um desconhecido os seus segredos e pesares mais íntimos, viria a aperceber-se do lado irrisório da situação.
Nunca acreditara na psiquiatria e nos seus praticantes aos quais denominava, em galhofa, de charlatães. Costumava ironizar muito, num jeito muito costumeiro de ver, na vida, o seu lado mais jovial, gracejando por tudo e por nada.
Desde a nefasta tarde em que vira a mulher a beijar outro homem e ficara a saber das intenções dela, os gracejos tinham morrido. Foi assim que nem pestanejou ao pegar no cartão de visita que a secretária lhe entregara, explicando-lhe, num tom que denunciava certo receio e apreensão, tratar-se de um psiquiatra conhecido dela. Ficara-se, por momentos, a fitá-la, sem saber se deveria agradecer o amável gesto ou devolver o cartão, num assomo de desprezo. Reparou então no ar complacente dela, como se soubesse exactamente o que lhe passava pela mente. Ao contrário das outras, havia-se mostrado mais reservada quanto ao sucedido, sem contudo deixar de lhe fazer sentir que estava do seu lado.
Então ela achava que ele deveria ir visitar um psiquiatra, hem?!

Três meses passaram. Continuava a ter dificuldade em se levantar de manhã, depois de uma noite mal dormida, com a cabeça a pesar-lhe e um gosto amargo na boca. Não era só a cabeça que lhe pesava: a solidão era o peso que sentia mais fundo, a tirar-lhe o gosto pela vida.
Tinha decidido consultar o tal psiquiatra, depois de ter travado uma luta interior, consigo mesmo, ainda não muito convencido da eficácia desse método. Também era adverso à ideia de admitir que necessitava de ajuda, a nível mental e psicológico. Para mais, havia ainda a relutância de muitos que estigmatizavam aqueles que recorriam à psiquiatria para tentar solucionar os seus problemas.
Tinha ficado bem impressionado com a primeira sessão e motivado para as seguintes. Ao contrário da ideia preconcebida que fizera, deparara-se com um médico simpático, bastante novo, de trato afável, sorriso aberto, muito frontal, que o predispusera para uma franca troca de ideias, como se estivesse a falar com um amigo, numa conversa informal, à mesa do café. Aprendeu verdades acerca de si próprio que desconhecia; abriu caminho para a descoberta da sua identidade; conseguiu respostas para muitas das questões que o deprimiam; começou a vislumbrar as causas de muitas das reacções do passado; foi, a pouco e pouco, compreendendo as lacunas do relacionamento com a mulher; acabou por se sentir menos culpado; a raiva e a revolta foram-se dissipando. Enfim, podia dizer-se que o dinheiro das consultas tinha sido bem empregue.
Contudo, estava longe de se sentir “curado”.
Já não era tanto a dor de ter perdido a mulher que o consumia mas sim o facto de ter sido enganado. Isso é que não conseguia esquecer e perdoar. Uma pessoa a quem amara e em quem confiara tinha-se transformado, de um dia para o outro, numa estranha. Para agravar a situação, ela conseguira viver num jogo de decepção, durante anos, sem ele se aperceber de nada.

Uma manhã, perdido na contemplação patética do monitor do computador, como era seu hábito, até que se sentisse com coragem para começar a dar despacho aos processos, empilhados, à sua frente, deu-se conta de um e-mail cujo remetente lhe era, de todo, desconhecido. Por um breve instante, a apatia deu lugar a um rasgo de curiosidade. Sem poder explicar porquê, sentiu um frémito percorrer-lhe o corpo quando, mais atentamente, leu a palavra que encabeçava o assunto: Surpresa!
Nunca gostara muito de surpresas e, muito menos, agora. No entanto, pensou que talvez fosse isso mesmo que ele precisava, naquele momento. Por segundos, tinha deixado de pensar na miséria da sua vida, preparando-se para abrir o e-mail, quando o telefone tocou. Sobressaltou-se, pegou maquinalmente no auscultador, compondo um ar profissional. Do outro lado do fio, soou uma voz feminina, muito sensual, perguntando se ele sabia quem era. O que menos desejava era fazer um esforço para adivinhar. A cabeça latejava, ainda sob o efeito da noite quase em claro, depois de ter ingerido demasiado álcool à mistura com alguns comprimidos.
Olhou de soslaio para o calendário. Não era o primeiro de Abril e a data, que soubesse, não apresentava relevância. Ela insistia, entre risinhos, acabando por lhe dizer que tinha mandado um e-mail, há dias, e como não recebera resposta…
À medida que a ouvia, foi-se apercebendo da familiaridade no tom dela. Atabalhoadamente, ia-se desculpando, sentindo-se um tanto sem jeito. Naquela confusão, até se esqueceu de carregar no rato e abrir o e-mail. Se o tivesse feito, era bem possível que desvendasse o mistério.

Notaram que algo mudara nele. Nos últimos dias, mostrara-se mais jovial. Além disso, sentiam-no misterioso, por vezes, distraído até, quando lhe dirigiam a palavra, ou então falava muito, perdendo-se em discussões acérrimas, palmilhando o escritório, em passos largos, gesticulando. Achavam-no inquieto, nervoso. Irritava-se com ninharias e perdia a paciência, altercando com elas, numa voz agitada, acabando por se arrepender e pedir desculpa, logo de seguida. Trocavam ideias entre si, tentando chegar a conclusões, arriscando as mais tolas conjecturas. Possivelmente era a medicação que o punha naquele estado. Ainda despeitadas por ele não ter sucumbido aos encantos de nenhuma delas, distraíam-se a tentar apurar o porquê do seu errático comportamento.
Havia ocasiões em que o viam ao telefone, falando baixinho e, se vislumbrava uma delas na proximidade, ia logo fechar a porta, num secretismo que as indignava. Afinal, elas tinham-no apoiado, durante os primeiros meses da crise dele, e o que lhes dera em troca? Era um homem sem compromissos e, mesmo assim, não se quisera aproveitar do que lhe tentavam oferecer. Chegaram a duvidar da sua virilidade. Ou seriam os comprimidos a diminuírem-lhe a libido? Tinham ouvido dizer que esse é um dos efeitos secundários dos anti depressivos.
Mal sabiam estarem muito longe da verdade!

Depois de ter recebido o enigmático telefonema, a vida dele tinha-se modificado mas ainda não sabia bem o que sentia sobre os acontecimentos dos últimos dias.
Depois de vinte e cinco anos sem a ver, ia encontrar-se com ela, numa esplanada, à beira-rio. Durante o dia, tinha andado irrequieto, mal podendo conter a ansiedade e o receio que se tinham apossado dele, fazendo-o esquecer tudo o mais. Ansiava voltar a vê-la e, ao mesmo tempo, receava nem ele sabia o quê. Caramba! Tinha passado tanto tempo! Já não eram os jovens irreverentes e impulsivos de então. Como estaria ela? Será que teria mudado muito?
Lembrava-se, com ternura e nostalgia, do rosto de menina, do corpo atraente, do sorriso sedutor, do andar tão feminino, na maneira que ela tinha de mover as ancas, transpirando sensualidade. Como fora possível não ter reconhecido, de imediato, aquela voz?!
Sentira-se incomodado quando ela lhe dissera que o tinha visto a sair do consultório do psiquiatra. Ainda bem que preferira não lhe falar nessa tarde. Possivelmente não teria sabido como reagir. Mas ela sempre soubera como proceder em relação a eles. Sempre tivera uma intuição muito apurada e uma maneira muito especial de o surpreender, continuamente.
Que diacho! Coincidência aquela! Então não queriam lá ver? A recepcionista do consultório era filha dela! Com tantos psiquiatras na cidade, tinha de ter ido àquele! Pensava, à medida que se ia preparando para aquele encontro que o punha num estado de nervosismo, como se voltasse a ser um adolescente.
Chegou cedo ao Café In. Ao primeiro relance, apercebeu-se da presença dela. Ainda não lhe vira as feições, e já sabia que era ela. As pernas fraquejaram um pouco, meteu as mãos nos bolsos para lhes conter a tremura. Avançou, lentamente, respirando fundo a brisa nocturna. A lua cheia espelhava-se nas águas calmas do Tejo, conferindo-lhes um matiz prateado. Deixou de ouvir os ruídos à sua volta, apenas conseguia ouvir a voz dela, pronunciando o seu nome, e cheirar o perfume que o envolvia, quando se aproximou mais e o beijou, ao de leve, na face. Depois, ficaram ambos mudos, olhando-se, num misto de emoção e embaraço.

Foi ela a primeira a quebrar o incómodo silêncio. Falou de banalidades, chamou o empregado e pediu a ementa, disfarçando muito bem o tumulto que lhe ia na alma, procurando não notar o assombro, estampado no olhar dele.
- Não mudaste nada – balbuciara, já um pouco refeito da primeira impressão que o deixara estupefacto.
- És muito lisonjeiro – era apenas o que lhe ocorrera responder, naquele instante, pensando consigo mesma o quanto, na verdade, tinha mudado. Ele não via essa mudança nem ela desejava dar-lha a conhecer, pelo menos, para já.
- Quando regressaste a Portugal? – indagou, a medo, tocando num assunto muito delicado, para ambos.
- Há muitos anos – respondeu, de uma forma vaga, evitando, a custo, o olhar penetrante dele, que a perturbava mais do que antecipara.
- Nunca me procuraste, nunca deste notícias a seguir à tua partida tão imprevista … – ganhara a coragem para a confrontar, como tinha querido tantas vezes, no passado.
- Tive as minhas razões – levou o copo aos lábios, e ele notou a tremura das suas mãos.
- E porquê agora? Ao fim de tantos anos?! – exclamou, ao mesmo tempo que fazia os possíveis para perscrutar as mínimas reacções dela.
- Como te disse, ao telefone, foi um daqueles ímpetos… nem sei bem… vi-te naquela tarde, mal podia acreditar que eras tu… – sorveu mais uns golos, passou a língua pelos lábios vermelhos e carnudos, fitando-o de um modo que o deixou comovido.
- Nunca te teria contactado se ainda estivesses com a tua mulher – teve o cuidado de se apressar a esclarecê-lo.
Olhava-a, sem esconder o embevecimento que sentia. Mal podia acreditar que ela estava ali, a seu lado: era como se estivesse a viver um sonho. Teve vontade de se beliscar. Lembrou-se da paixão de outrora, do desgosto que sofrera, após aquela repentina decisão dela de viajar para África. Nunca se habituara à teimosia e determinação dela, sempre à procura de resolver os problemas do mundo, sempre insatisfeita, metendo-se em projectos para, dizia, com arrebatamento, “produzir uma diferença”, “ser útil ao seu semelhante”.
Recordou a funesta noite que antecedera a partida dela. Tinham-se amado com fogosidade, numa entrega sem limites: o travo amargo da iminente separação a fazê-los demorar aqueles momentos, ficando abraçados, sem dormir, até de madrugada. Nunca tinha chorado como naquela noite, suplicando-lhe para ficar. Não conseguira demovê-la dos seus intentos. Sabia que deixava ir embora o amor da sua vida, aquele amor que só se vive uma vez. Contudo, foi um cobarde. Colocou em primeiro lugar a carreira e o futuro promitente na firma de advogados onde começara a trabalhar. Depois, também não tinha a coragem dela; não era um sonhador que deixasse tudo para trás, para embarcar numa aventura que o levaria sabia-se lá onde…
Teve receio de perguntar mas afoitou-se:
- Conseguiste realizar o que tanto pretendias? Tens sido feliz?
Ela desviou o olhar, fazendo um esforço para não deixar cair as lágrimas que teimavam em nublar-lhe a visão.

Nos últimos dias, tinha ensaiado o que lhe diria porque já suspeitava a curiosidade dele. Vacilara, várias vezes, quanto àquele encontro, frente a frente, culpando-se e arrependendo-se de ter sido fraca; ter-se deixado levar pela emoção e nostalgia, ao vê-lo, depois de tantos anos, a tentar esquecê-lo. O que não previra fora aquilo que estava a sentir, ali, naquele momento. Também ela recordou a última noite de paixão; a dor que sentira ao separar-se dele; a dúvida que começara a nascer. Mesmo assim, não voltaria as costas a um sonho que acalentara, desde que se tinha formado em Medicina. Não desejava um futuro a correr para consultórios, clínicas e hospitais, numa rotina que a assustava. Tinha querido usar os seus conhecimentos de uma forma mais nobre, auxiliando os mais necessitados, em países menos desenvolvidos. Ao seu espírito humanitário aliava-se o desejo de aventura. Queria também descobrir-se a si própria, numa busca constante da sua identidade. Habituada a uma vida a que nada faltava, precisava de experimentar o reverso. E de que maneira viria a experimentá-lo!
O empregado de mesa aproximou-se com os pratos que colocou em frente deles e ela ficou aliviada, pela interrupção daquele diálogo. Recompôs-se, esboçou um sorriso, fez de conta que não tinha ouvido ou já esquecera a sua pergunta. Há muito tinha aprendido a arte da simulação.
- Lembro-me que sempre gostaste muito de peixe grelhado – falou, à medida que levava à boca uma garfada de salada.
- Tens boa memória. E tu continuas a preocupar-te com as calorias – tinha entendido que ela não desejara responder à sua pergunta; sabia que a comovera e pressentira a sua agitação.
Só agora notava que nunca esquecera o mínimo pormenor acerca dela. Tinha estado a observá-la: conservara o mesmo ar de menina; os olhos, de um castanho aveludado, conservavam a mesma vivacidade; usava agora o cabelo curto, acentuando ainda mais o rosto de linhas perfeitas, quase sem maquilhagem; tinha ainda aquele hábito de poisar os cotovelos na mesa e apoiar o queixo nas mãos, perdida na contemplação do infinito.
Acompanhara-o, todos aqueles anos, em que se dedicara a manter uma fidelidade à mulher com quem se casara, num gesto mais de dever do que paixão. Sem dúvida que a amava mas o que apressara o casamento tinha sido o facto de ela ter engravidado. Quisera fazer o que julgara ser de obrigação. Não quisera voltar a ser cobarde. Nunca olhara para outra mulher, pensando que era a maneira de se redimir dos erros do passado. Aprendeu até a amá-la mais, com o andar do tempo e a habituação. Não queria dar-lhe motivos para ela se queixar: era sua obrigação fazê-la feliz. Fora por isso que se sentira culpado quando ela o abandonara. Mais uma vez havia falhado.
- És casada? – perguntou, num tom desprendido, sem parar de mexer o café, quase frio.
- Não – fez uma pausa, com o olhar perdido nas pessoas que passavam. – Nunca casei – continuou, olhando-o de soslaio.
- A tua filha… – deixou a frase suspensa, sorvendo o café.
- Parece-se contigo. Fisicamente, quero dizer. Talvez esteja enganado mas acho que ela não tem o espírito aventureiro da mãe – disse, com um certo azedume, numa inflexão que o denunciou.
Ao contrário do que antecipara, ela não se mostrara aborrecida com o seu desaforo. A face iluminara-se, contudo parecia, de repente, muito distante dele.
- Tens razão. Sempre foste muito perspicaz. Ela é bem diferente de mim. Talvez seja melhor para ela – olhou-o e ele deu-se conta da tristeza desse olhar.
Prendeu-lhe a mão entre as suas, acariciando-a, num gesto há muito desejado. Ela não protestou.

Caminharam, de mãos dadas, junto ao rio. Era princípios de Junho e estava uma temperatura muito agradável. Ficaram silenciosos, entregues aos seus pensamentos e às sensações que estavam vivendo. Era como se tivessem retrocedido no tempo e voltassem a ser os namorados de outrora.
- Devo-te uma explicação – tinha arranjado a coragem para falar, agora que não tinha o olhar penetrante dele a perturbá-la.
- Tu não me deves nada – já se tinha arrependido de ter feito as perguntas, durante o jantar, embora ardesse em curiosidade.
- O facto de ter sido eu a partir e nunca ter dado notícias, faz com que me sinta na obrigação… um sentimento de culpa… sei lá… – sentiu a mão dele apertar a sua com mais força e estremeceu.
Agora que havia começado teria de ir para a frente, sem vacilar.
- Na altura desejei que abandonasses tudo e me acompanhasses. Para mim era tudo ou nada, entendes? Não te perdoei, não consegui perceber a tua cobardia; não compreendi os teus motivos; a meu ver tu não me amavas o suficiente. Deixaste-me ir assim… – disse tudo, de um fôlego, numa voz embargada pela emoção, sem o fitar.
Ele manteve-se silencioso, como que alheado.
- Queria seguir o meu sonho e, ao mesmo tempo, ter-te a ti. Só mais tarde entendi que estava a pedir o impossível e tinha sido injusta contigo. Nunca se deve pedir tanto a alguém. A minha experiência em África foi muito positiva porque me mostrou uma realidade que desconhecia. O povo africano ensinou-me uma outra forma de amar – continuou, já mais segura de si. – Encontrei muito do que procurava, tive experiências que me marcaram para toda a vida. Passei por momentos muito altos e outros que me deixaram de rastos mas valeu a pena. Fui muitas vezes feliz e, outras tantas, infeliz. Que é a felicidade afinal? Muito relativo – respirou fundo.
Estava a gostar de ouvi-la. Reconhecia nela a jovem do passado, falando com paixão, sobre tudo, deixando-o ficar preso às suas palavras. Costumava deitar a cabeça no colo dela e ficar-se assim, por muito tempo, a escutá-la, dissertando sobre os mais variados tópicos, sempre empolgada.
- Fui muito egoísta e procedi muito mal contigo. Preciso de saber se me perdoas – parou e voltou-se para ele. Havia uma súplica no olhar dela.
Abraçou-a, com ternura; ela encostou a cabeça ao ombro dele, a soluçar baixinho. Apertando-a mais contra si, sussurrou-lhe ao ouvido:
- Minha querida, não precisas do meu perdão. Eu também me senti culpado, durante muito tempo. Éramos muito novos e imaturos. Nunca te culpei.
- Primeiro não dei notícias por causa da raiva e sofrimento que sentia por não teres impedido que eu partisse. Depois, com o passar do tempo, ainda continuando a amar-te com loucura, decidi que seria melhor para ti se eu desaparecesse completamente da tua vida – parou como a ganhar fôlego para continuar.
- É possível que tivesse continuado a viajar pela América do Sul e o Médio Oriente, mas a minha filha passou a ser a maior prioridade para mim. Regressei a Lisboa quando ela tinha cinco anos porque achei que devia conhecer os avós, ter uma vida familiar, uma maior segurança e melhor educação.
Quando falava na filha, o semblante transfigurava-se e havia um brilho no seu olhar.

Tinham-se sentado no carro dele, fugindo à aragem nocturna. Ela tremia. Puxou-a para si e beijou-a, levemente, no pescoço, acariciando-lhe as mãos. Não ofereceu resistência. Tinha desistido de lutar consigo mesma. Então, ganhou coragem para lhe revelar que não tinha sido por acaso que ele fora ao consultório de psiquiatria onde a filha trabalhava. A secretária dele era sua amiga de infância.
A vida pregava cada partida – pensou ele, ouvindo-a, em sobressalto, pressentindo algo de temeroso.
- Não tenho muito mais tempo de vida – disse ela, com esforço, a voz entrecortada pela emoção e pesar.
Ia deixá-lo novamente mas desta vez ele não ficaria completamente só. Era justo que lhe desse a conhecer a filha de ambos. Tinha-o privado de tanto!
Há muito que desejara voltar para os braços dele. Sentia-se bem. Olharam-se longamente. A boca dele procurou a dela, não contendo mais o desejo que o consumia. Foi como se nunca se tivessem separado. Nem o presságio de uma nova e definitiva separação conseguiu toldar aquele momento.


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